FHC comprou peemedebistas, diz Itamar
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segunda-feira, 09 de março de 1998
Agência Estado 
Arquivo folhaAtordoadoItamar Franco: o ex-presidente diz que ainda não sabe qual será seu destino políticoO ex-presidente Itamar Franco disse ontem que o governo comprou os convencionais do PMDB, que deram a vitória à proposta de apoio à reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. Segundo Itamar, o PMDB pode desaparecer, se continuar a ser dominado pelos mercenários. Itamar Franco deixou de lado o acordo de cavalheiros que propusera na sexta-feira à ala governista do PMDB e disse que de forma alguma vai apoiar a reeleição, porque é contrário à tese.
Tendo ao lado o ex-ministro José Aparecido e o deputado Raul Belém (PFL-MG), seus dois fiéis companheiros, o ex-presidente afirmou que, por enquanto, vai ficar em Minas, estudando a reação dos mineiros à decisão do PMDB. Ele não adiantou o que pretende fazer no campo político: se vai continuar pensando na Presidência, se vai disputar o governo de Minas ou se poderá optar pela disputa de uma vaga de senador.
Itamar Franco disse que vai entregar o cargo de embaixador do Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA) no dia 2 de abril, fazendo seu discurso de despedida no dia 31 de março. Itamar voltou a dizer que seu candidato a presidente em 1994 era o governador do Rio Grande do Sul, Antônio Britto, e não o presidente Fernando Henrique Cardoso. Na convenção do PMDB Britto sequer cumprimentou Itamar. O ex-presidente disse que não ficou magoado. Apenas triste.
A seguir os principais pontos da entrevista de Itamar Franco, concedida ontem no Hotel Nacional, em Brasília:
A VITÓRIA DO GOVERNO - O lado que ganhou comprou, usou verbas federais, usou ministro, perdeu a compostura. Isto denegriu a imagem do político brasileiro. O respeito à decisão do PMDB - Eu propunha um acordo de cavalheiros. Eu pedia que um representante de cada uma das alas fosse à tribuna, antes de iniciar a convenção, e que estabelecessem um acordo de cavalheiros: quem perdesse respeitaria a decisão da convenção. Ninguém me respondeu. Eu não vou ficar mais pregando no deserto.
DECISÃO DO PMDB - O PMDB tomou uma grave decisão. Quando ouvi o sujeito falar em 2002, pensei: esta gente esquece até os designios de Deus. Quem é que pode dizer de 2002? Esta aliança não dura a primeira disputa para a eleição da Câmara dos Deputados, já que os outros partidos têm candidatos?
O PMDB tem uma participação periférica. O PMDB comanda a moeda, comanda os juros, comanda o câmbio, comanda o Banco Central? Não. Ele tem setores. O governo faz favores ao PMDB. Não. O PMDB ajuda, no regime presidencialista, a governabilidade. Na hora da decisão de ter candidato, não estaria traindo o presidente da República.
FIM DO PMDB - Se for mantido como um partido de mercenários, é o fim mesmo. As vaias foram compradas. O presidente Vargas já dizia que as vaias são uma atitude pública. Mas as da convenção foram sob o vil metal, com policiais à paisana. Lutei por liberdades públicas, mas não por esta liberdade comprada por homens do governo, homens do ministério do senhor presidente Fernando Henrique Cardoso.
REELEIÇÃO - Sou contra. Quero recordar 1994. Então presidente da República, fui procurado pelo líder Pedro Simon, e lhe disse que não tocasse na reeleição porque não pretendia que dela me aproveitasse. Esta reeleição não foi aprovada em 1994. Foi aprovada em junho, se não me engano a data, a modificação constitucional reduziu o mandato para quatro anos. E àquela época, propositalmente, não se fixou a reeleição. Porque, diga-se a verdade, havia um medo naquele instante de que o senhor Lula vencesse no primeiro turno, como as próprias pesquisas estavam dando.
ANTÔNIO BRITTO - Vou buscar na memória. Números, que tenho certeza de que o honrado governador do Rio Grande do Sul tem. Pouco depois do dia 2 de julho - nós lançamos o Real no dia primeiro - eu tinha uma pesquisa, cuja cópia eu tenho a certeza de que o governador Britto tem. Dava os seguintes números: Fernando Henrique Cardoso, 10%, Britto,19%, Lula, 45%. Com este resultado, muita gente queria que eu abandonasse a candidatura de Fernando Henrique Cardoso.
Mas antes da desincompabilização do governador Britto, eu tive uma conversa com ele. Britto há de se recordar desta conversa, porque foi ele que me procurou. Ele disse: Presidente, meu caro Itamar, eu não quero ser candidato a presidente da República, mas quero governar o Rio Grande do Sul. Portanto, não leve meu nome à candidatura presidencial.
O DESTINO - Estou voltando a Minas Gerais, para ter um debate dia 12, na Faculdade de Direito da Universidade Federal. Vou conversar com os companheiros, vou sentir na rua o que pensa Minas, porque são as minhas raízes. É o que vou fazer.


