Agência Estado
De Brasília
O presidente Fernando Henrique Cardoso chamou ontem a oposição de ‘‘irresponsável, injusta’’, acusou-a de ‘‘usar de má-fé para enganar o povo’’ e defendeu a cobrança dos inativos, alegando que está estabelecida no Brasil uma situação de desigualdade. ‘‘Aqui, pelas decisões jurídicas tomadas, quem estiver trabalhando e quiser ganhar mais, deve pedir, mais depressa possível, a aposentadoria’’, ironizou o presidente, acrescentando: ‘‘É impossível; é uma situação patética para um país, embora jurídica.’’
Os ataques foram feitos às vésperas da reunião com os governadores e do envio da emenda que permitirá a cobrança previdenciária dos servidores públicos inativos. As declarações foram feitas em Brasília, em encontro com empresários do setor de alimentos, comércio e serviços, que foram ao Planalto manifestar total apoio ao governo (leia sobre o assunto em Folha Economia).
Segundo FHC, nem mesmo o fato de que a medida possa afetar a popularidade dele ‘‘não o apavora’’. ‘‘Impopular, quando se explica, é a defesa do privilégio, do privilégio dos ricos, que se fosse dos pobres, mas não.’’ Fernando Henrique enfatizou que a aprovação da emenda dos inativos não é apenas uma ‘‘questão de equilíbrio fiscal, mas uma questão de justiça’’.
‘‘É um setor tão pequeno, pega menos de 1 milhão de pessoas’’, comentou. ‘‘Não é possível que o conjunto da sociedade fique com a conta de R$ 35 bilhões de reais, que com os juros vai quase a R$ 50 bilhões todo ano, para manter uma situação de desigualdades e privilégios’’. O presidente repetiu várias vezes que os inativos vão ganhar mais do que os que estão na ativa.
De acordo o presidente, além da situação de desigualdade para com os servidores da ativa, o ‘‘privilégio’’ dos inativos públicos também contrasta com os aposentados do setor privado. Fernando Henrique afirmou que o teto máximo da aposentadoria privada é de dez salários mínimos e que, em média, eles se aposentam com dois ou três salários mínimos e 60 anos. ‘‘Há outra desigualdade aí, e tem de ser corrigida’’, disse.
‘‘Direito é uma coisa, privilégio é outra’’, atacou FHC. Sem dar aumento linear aos funcionários públicos desde o primeiro mandato, Fernando Henrique afirmou ainda que o fato de o governo não poder cobrar a previdência dos servidores inativos está ‘‘bloqueando’’ a possibilidade de melhorar o salário dos que estão em atividade. ‘‘Cada vez que melhora aqui, aumenta o déficit lᒒ, ponderou, argumentando que a desigualdade beneficia os que ganham mais no setor público e não tem nada a ver com a luta dos funcionários a favor da paridade. ‘‘Temos de sair dessa armadilha institucional, jurídica, na qual nós estamos.’’
Ao citar diferentes avanços do governo na área social, o presidente criticou a oposição por usar como argumento contra as reformas constitucionais o fato de o governo as fazer em detrimento dos mais pobres e do povo. ‘‘A maior injustiça que a oposição comete para o Brasil e para o mundo é dizer que não estamos cuidando do social’’, disse. ‘‘Isso é mentira’’, disse duas vezes, acrescentando: ‘‘Se fosse verdade, eu não teria sido reeleito.’’ Segundo o presidente, o governo avançou nas questões sociais, embora falte muito a fazer ainda. Por isso é natural que a sociedade cobre mais ações.Às vésperas da reunião com governadores e do envio da emenda que prevê cobrar inativos, presidente reage a críticas
Roosevelt Pinheiro/Agência BrasilREAÇÃOFHC discursa durante encontro com empresários: ‘‘Oposição é injusta e usa de má-fé para enganar o povo’’

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