Arquivo Folha‘‘Vai começar a campanha eleitoral de Fernando Henrique’’

BRASÍLIA - O presidente Fernando Henrique Cardoso começou o novo ano disposto a obter, ainda em janeiro, a autorização da Câmara dos Deputados para disputar um segundo mandato em 1998. Como um candidato em campanha, ele está fazendo política num ritmo frenético: desde a última segunda-feira ele vem recebendo os grandes caciques do Congresso em sucessivos jantares no Palácio da Alvorada. Conheceu, assim, as entranhas do voto e está certo da vitória, apesar das pesquisas junto aos deputados que dizem o contrário.
‘‘O governo entrará em nova fase, depois de aprovar a emenda da reeleição’’, prevê o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), um dos comensais do Alvorada. ‘‘Vai começar a campanha eleitoral de Fernando Henrique’’. Os políticos, que têm um faro aguçado para as mudanças, já se movimentam de forma a ter um pé ou ambos no futuro. Todos os caciques que estiveram com o presidente, ao longo da semana, cuidaram mais de se alojar na próxima fase do governo do que propriamente contar votos para a reeleição.
O presidente do PPB, senador Esperidião Amin (SC), abriu a fila, na segunda-feira, insinuando-se como candidato a ministro. Amin trabalhou em dobradinha com o ministro Francisco Dornelles, do PPB fluminense, para minar a influência do ex-prefeito Paulo Maluf na bancada de 87 deputados. No jantar do Alvorada, o senador se ofereceu para fazer uma ponte entre o presidente e o ex-prefeito, mas a partir de uma premissa improvável: um acordo para submeter a emenda reeleição a um referendo popular.
- Na base do referendo, o senhor aceitaria que eu tentasse uma reaproximação com o Maluf? - sugeriu o senador.
- Desde que ele admita conversar - devolveu Fernando Henrique, sem apostar uma ficha na proposta.
No dia seguinte, em São Paulo, Amin fez a proposta a Maluf e ouviu, como previa, um sonoro ‘‘não’’. Ganhou o crédito por ter tentado o impossível, mas não tem a promessa de ser ministro da Agricultura, como deseja. A vaga permanece com Arlindo Porto, do PTB. A pequena mas estratégica bancada petebista terá de votar a favor da reeleição sem ampliar espaços. Foi o que o presidente disse ao novo líder do PTB na Câmara, Vicente Cascione (SP), na quinta-feira. Meia bancada (de 24 deputados) se rebelou contra o governo e o partido não voltará ao bloco que formou com o PFL. O Planalto conduz o PTB para um acordo com o PMDB, ‘‘o que pelo menos o isola do vírus malufista’’, conforma-se um líder governista.
‘‘É impressionante como Fernando Henrique constrói sua reeleição a custo zero’’, admira-se o líder do PFL na Câmara, Inocêncio Oliveira (PE). O custo não é exatamente ‘‘zero’’, mas o Planalto tenta administrá-lo de forma política. Na quarta-feira, por exemplo, Fernando Henrique recebeu no Alvorada o presidente do PMDB, deputado Paes de Andrade (CE), declarado adversário da reeleição. Paes levou para o jantar o líder e candidato do partido à presidência da Câmara, Michel Temer (SP).
Acertaram ali que o partido manterá os espaços que já tem no governo, além do apoio do Planalto à eleição de Temer. Em troca, na convenção de hoje, o PMDB deve deixar a bancada livre para votar a emenda da reeleição. ‘‘A ação do presidente, nessa reta final, foi junto aos grandes eleitores’’, disse o líder do governo na Câmara, deputado Benito Gama (PFL-BA). A estratégia do governo tem sido a de institucionalizar o processo, confiando que já está consolidada a maioria no Congresso para aprovar a emenda.
‘‘Os políticos já perceberam que esta é a vontade da sociedade’’, diz o ministro dos Assuntos Políticos, Luiz Carlos Santos. ‘‘Reeleição se decide no atacado, não no varejo’’. Nem tanto, pois Fernando Henrique recebeu, em seu gabinete, deputados que nunca haviam provado o cafezinho do Planalto. Se não é para aprovar a emenda, já é a reeleição em marcha.

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