FHC cede a pressões e demite Carvalho
Agência Estado
De Brasília
O presidente Fernando Henrique Cardoso demitiu no início da madrugada de ontem o ministro do Desenvolvimento, Clóvis Carvalho, um de seus mais leais auxiliares desde quando assumiu a pasta da Fazenda, em 1993. A decisão de demitir Carvalho foi tomada depois das pressões insistentes das lideranças dos partidos aliados e da cobrança do ministro da Fazenda, Pedro Malan, que sentiu-se agredido pelo discurso do colega do Desenvolvimento, proferido durante seminário do PSDB, na quinta-feira.
Antes de dirigir-se para uma conversa convocada pelo presidente, no Palácio da Alvorada, Carvalho disse que não pediria demissão, por não encontrar motivos para tal iniciativa. Mas acataria a decisão do presidente, se essa fosse sua vontade, sem contestação. O que o ministro não sabia era que Fernando Henrique já havia tomado a decisão, quando pediu ao ministro da Casa Civil, Pedro Parente, para convocar Carvalho a Brasília, para uma conversa que só começou às 23h20m. Ao deixar o Alvorada à 0h50, o ministro não falou com a imprensa, que aguardava o desfecho do encontro. Já em sua casa, ele disse que só falaria sobre a reunião mais tarde.
O tom do discurso do ministro, qualificando de medíocre o nível de crescimento da economia e de covardia o excesso de cautela com a administração do projeto de desenvolvimento, foi considerado inaceitável pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan, que aguardava uma atitude do presidente que desautorizasse Carvalho e resgatasse sua autoridade.O ministro demitido passou a sexta-feira em Fortaleza, tentando esclarecer que seu discurso não contestava a política de Malan. Apesar do esforço, FHC considerou que não poderia aceitar a exposição de divergências internas de seu governo ao público, depois que promoveu uma reforma ministerial em busca de uniformidade de discurso.
Carvalho foi, paradoxalmente, o maior opositor dos métodos de ministros que criticaram a política econômica do governo, como o falecido Sérgio Motta, Luiz Carlos Mendonça de Barros (Comunicações) e José Serra (Saúde). Nenhum deles demitido por Fernando Henrique.
O presidente considerou o discurso inoportuno embora tivesse sido informado por Carvalho de seu conteúdo , principalmente porque ocorreu num delicado momento de costura política, que garantiu a acomodação dos conflitos internos em sua base de sustentação no Congresso. Conflitos em sua maioria gerados por insatisfações com a política econômica de austeridade. O Clóvis tem de sair depois desse discurso, adiantava ainda na sexta-feira um líder político.
Fernando Henrique não tem interesse no desgaste de Malan, nem em mudanças na política econômica, mas concorda com vários pontos do discurso de Carvalho, em que ele propõe maior ousadia para fazer o País crescer. Gostaria que o ministro da Fazenda reorientasse a atuação de sua equipe, considerada inflexível e insensível ao projeto de desenvolvimento do governo. O estilo do ministro já foi questionado várias vezes pelos colegas de governo, em reuniões da Câmara de Política Econômica ou da turma do Desenvolvimento, na presença de Fernando Henrique.Dois dias depois de criticar política econômica, ministro do Desenvolvimento, fiel auxiliar do presidente, é demitido
Dida Sampaio/AEFORA DA EQUIPECarvalho chega em sua casa na madrugada de sábado, após reunião com FHC, no Palácio do Planalto: demissão cede a reclamações de aliados





