O presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem que o Brasil precisa de ‘‘um ajuste fiscal mais duro’’ e advertiu os políticos governistas para a necessidade de apoiar as medidas que serão anunciadas segunda-feira pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan. ‘‘Não se tenha ilusões: nós precisamos, no caso do Brasil, de um ajuste fiscal mais duro e este ajuste virᒒ. Aos políticos aliados, que se preocupam com o prejuízo eleitoral do ajuste, mandou um recado: ‘‘Os deputados que se opuserem a isso são contra mim, são contra o governo’’.
Fernando Henrique reagiu com surpresa à notícia de que o PSDB teria fechado questão contra o pacote fiscal. ‘‘Isso seria um paradoxo’’, afirmou o presidente. ‘‘Como fechar questão sobre matéria que não se sabe qual é?’ De fato, o partido decidiu apenas votar contra o Imposto sobre Combustíveis, mas seus líderes resistem a todas as iniciativas que representem mais impostos.
Perguntado sobre a elevação da alíquota da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) de 0,2% para 0,25% e do aumento do Imposto de Renda das empresas, o presidente desconversou. ‘‘Os termos e itens mencionados podem ter sido eventualmente citados por alguém, mas não foram aprovados por mim ainda’’, afirmou. ‘‘Isso tudo vai depender de uma aprovação minha’’, acrescentou.
Para Fernando Henrique, quem for contra a proteção do real estará sendo contra ele e o governo. ‘‘Alguns levantam essa questão eleitoral, mas o eleitorado não é ignorante, é um eleitorado que acompanha, que sabe, que espera que seus dirigentes, em vários níveis, tomem as decisões pertinentes para o momento’’, ressaltou o presidente, acrescentando: ‘‘Eu não terei dúvida nenhuma que se houver resistência a alguma medida necessária, eu vou lutar para que essa medida seja vitoriosa até o fim’’.
Ele confia que os desdobramentos da crise vão se impor até sobre os deputados que exigem ser atendidos em seus pedidos de emendas individuais no Orçamento, em troca de apoio ao governo. ‘‘Se na Comissão de Orçamento alguns deputados acham que não querem cooperar nisso ou naquilo, e sempre há os que acham isso ou aquilo, mas a realidade se impõe, as realidades se imporão’’, afirmou. ‘‘Eu acho que nessa hora não há consideração outra senão a defesa do interesse da população, do povo e do País.’
O presidente disse que as notícias de que o PSDB está sendo contra o pacote fiscal podem ser boato. Entretanto, anunciou que pretende manter a estabilidade do real. ‘‘A minha disposição, eu reafirmo, é a de fazer tudo para garantir o real’’, afirmou Fernando Henrique, assegurando que, caso alguns integrantes da Comissão de Orçamento tentem impedir alguma ação do governo, a resposta será dada pelos eleitores. ‘‘O povo e o País sabem que uma moeda sólida é a melhor condição para o desenvolvimento, do bem estar do País e da população’’. E acrescentou: ‘‘Isso é o meu lema’’.
O presidente também advertiu que as eleições não podem ser um obstáculo aos ajustes mesmo que eles desagradem os candidatos. ‘‘Não creio que os que eventualmente imaginarem que estão defendendo os seus interesses eleitorais ao se oporem às medidas necessárias estão no caminho certo’’, advertiu. ‘‘Não, porque o eleitorado saberá distinguir.’
O presidente afirmou que a oscilação das bolsas de valores pelo mundo poderá prejudicar o projeto de vários países, inclusive do Brasil. ‘‘Vamos fazer o possível e o impossível para ultrapassar estas dificuldades e, como não é uma questão brasileira, a solução disso depende do que acontecerá em vários países’’, observou, assegurando que o governo tem rumo definido e está controlando seus gastos como forma de manter a estabilidade. ‘‘Agora, vamos tomar as medidas necessárias para evitar que haja uma pertubação do projeto nacional’’, acrescentou.
Segundo presidente, o que está em jogo não é o governo, mas o próprio País. ‘‘Por isso já apelei várias vezes para uma compreensão nacional, porque pressentia que é um problema que pode alcançar negativamente, se persistir, o povo’’, afirmou ele.
Fernando Henrique explicou que alguns países, como o Japão e o Brasil, possuem situações diferentes, mas as consequências da oscilação das bolsas internacionais são as mesmas. ‘‘Não adianta pedir que o Brasil só faça isso ou aquilo, mas que haja algum instrumento de controle internacional que faça, em certos momentos, que estas especulações atinjam indiscriminadamente países com bom estado econômico, como é o caso do Brasil’’.
Fernando Henrique descartou que o Brasil seja a ‘‘bola da vez’’ , como previram corretoras estrangeiras na semana passada. ‘‘O mercado, como ele corre hoje, é uma bola a esmo, que pode cair na cabeça de qualquer País’’, explicou Fernando Henrique, afirmando que, caso esta bola caia no Brasil, é preciso tirá-la do alcance. ‘‘Nós somos bons de futebol, a gente cabeceia e a bola vai cair na cabeça de alguém, melhor que caia no Atlântico.’’

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