Mais do que uma trégua nas disputas partidárias, o apelo do presidente Fernando Henrique Cardoso dirigido ontem de manhã aos líderes políticos do PMDB, PFL e PSDB foi o fim da briga que ameaça não só a longevidade da aliança governista, mas os rumos traçados pelo governo para conduzir a política econômica no próximo mandato. Aos aliados que vinham se engalfinhando por causa de ministérios e da permanência do ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, Fernando Henrique disse ‘‘compreender’’ que cada partido tenha seu próprio projeto para 2002, mas agora o País não comporta conflitos. ‘‘Este é o momento mais delicado do governo, por causa da conjuntura econômica’’, disse o presidente.
Numa exposição de quase uma hora durante o café da manhã no Palácio da Alvorada, em que situou o problema econômico internacional, a moratória da Rússia e a reação brasileira à crise, Fernando Henrique Cardoso insistiu que a coesão de aliança política que sustenta este governo é fundamental para que prosseguir com o ajuste econômico. O presidente lembrou que, só em agosto, o Brasil perdeu R$ 22 bilhões. ‘‘É necessário a harmonia dos aliados’’, sustentou o presidente.
O constrangimento foi inevitável no encontro com os aliados, que excluiu os líderes do PPB e PTB. ‘‘Entre vivos e mortos escaparam todos’’, disse o líder do PFL na Câmara, deputado Inocêncio Oliveira (PE), logo depois do encontro. Desde que as fitas com as conversas telefônicas do ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros foram divulgadas, as principais lideranças do PFL e PMDB começaram a pedir a cabeça do titular da pasta.
Como Mendonça de Barros é filiado ao PSDB, os tucanos partiram em defesa do ministro, o que acabou criando uma cisão na base aliada. No encontro, o clima ainda era tenso. Até minutos antes do café da manhã - que todos sabiam que seria amargo - lideranças dos três partidos ainda davam declarações à imprensa criticando o comportamento dos aliados. ‘‘As declarações do PSDB tinham sido fortíssimas’’, queixou-se Inocêncio. ‘‘O clima só desanuviou quando o presidente Fernando Henrique começou a falar.’’
O presidente aparentava cansaço e abatimento, mas atribuiu à viagem feita no dia anterior a Roraima. Lamentou a saída de Mendonça de Barros e do presidente do BNDES, André Lara Resende. ‘‘Foi um episódio lamentável, eram pessoas de minha confiança, pessoas que ajudam a pensar o governo’’, afirmou. Ele pediu empenho e união dos líderese reafirmou a criação do Ministério da Produção.
Enquanto relatava seus esforços para superar a crise que envolveu o País, citando até as conversas que manteve com o presidente norte-americano Bill Clinton, e o efeito positivo gerado para País, Fernando Henrique mandou um recado claro para seus auxiliares. ‘‘Eu tinha de sinalizar alguma coisa para o País e o que ocorreu foi a criação do Ministério da Produção, reunindo todos os intrumentos para dinamizar o setor produtivo, reaquecer a economia, numa política única’’, explicou o presidente, segundo interlocutores. E acrescentou: ‘‘Este não é um ministério que vai servir a este ou aquele partido.’’
Com a indignação expressa do presidente pelas demissões dos tucanos, o PSDB considerou-se de alma lavada. ‘‘Nosso objetivo agora não é ficar trocando farpas’’, afirmou o presidente do PSDB, senador Teotônio Vilela (AL). ‘‘Cabe ao PSDB ser a espinha dorsal e condutor desse aliança’’, justificou. Além dos líderes do partido, também estava no encontro o ministro da Saúde, José Serra. Na ocasião eles conversaram por telefone com os governadores Mário Covas, Tasso Jereissati e Dante de Oliveira. Todos chegaram a um consenso. Era hora de abafar o incêndio na base aliada.

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