Alguns dias depois de dizer que ‘‘vida de rico é muito chata’’, o presidente-candidato Fernando Henrique Cardoso declarou-se ontem ‘‘presidente dos pobres’’. ‘‘Eu sou o presidente dos pobres mesmo, quem mais gosta do real são os pobres’’, disse em encontro com pastores evangélicos que manifestaram apoio à sua reeleição. Há cerca de dez dias, em comício no Rio, Fernando Henrique disse que a vida dos ricos é chata e se disse pobre.
Ontem em Brasília, FHC disse aos pastores que seu governo ajudou a pôr mais comida na mesa do pobre. E atribuiu a perda de popularidade registrada em maio e junho ao ‘‘estômago’’, referindo-se ao aumento do preço do feijão e do arroz em razão da seca e das enchentes.
Num discurso a portas fechadas com 310 pastores, representantes de 11 ramificações da igreja evangélica, o presidente disse que não é momento de ‘‘esmorecer’’ diante da crise e comemorou a subida de posição do Brasil no índice de desenvolvimento humano da Organização das Nações Unidas (ONU) criticando seus opositores. ‘‘Tenho ouvido, quase sem responder, críticas de quem não faz outra coisa a não ser criticar, verdadeiras matracas do pessimismo’’, declarou.
Segundo ele, a principal crítica de seus opositores é de que durante os quatro anos de seu governo, ele só se preocupou em manter a estabilidade da moeda e deixou de lado as ações sociais. ‘‘Creio que não preciso eu estar respondendo, a toda hora, se houve ou não preocupação com o social, porque a própria ONU está dizendo’’, disse Fernando Henrique. O Brasil pulou do 68º para o 62º lugar na classificação dos 174 países em desenvolvimento humano.
Enviaram representantes as igrejas evangélicas Assembléia de Deus, Batista, Metodista, Nova Vida, Comunidade Evangélica, Presbiteriana, Evangélica Quadrangular, Maravilhas de Jesus, Casa da Benção, Deus é Amor, Cristo Vive. A Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, não estava formalmente representada no encontro. A igreja de Macedo é a quarta maior do País, entre as evangélicas. A maior é a Assembléia de Deus, com 12 mil pastores distribuídos no País. A Igreja Católica está informalmente apoiando o candidato do PT e da frente das esquerdas, Luiz Inácio Lula da Silva.
O presidente-candidato ficou pouco mais de uma hora reunido com os evangélicos e deixou o auditório da Academia de Tênis de Brasília com a promessa de ganhar os votos de quase todos os 15 milhões de eleitores evangélicos que os líderes religiosos calculam ter no País. ‘‘Não posso dizer que 100% vão votar na reeleição de Fernando Henrique, mas eu garanto que quase a totalidade vai’’, prometeu o pastor José Wellington Bezerra, presidente da Convenção Nacional das Assembléias de Deus do Ministério das Missões.
Dos religiosos, Fernando Henrique ganhou uma Bíblia, um manifesto de apoio à reeleição e ao seu programa de governo, além de orações pela sua vitória nas urnas e pelo restabelecimento da saúde da primeira-dama Ruth Cardoso - que teve uma arritmia já controlada. Em troca, Fernando Henrique prometeu uma solução para a Lei do Meio Ambiente que deixa ambígua a aplicação da lei do silêncio nos templos religiosos. ‘‘O presidente garantiu que as sanções à quebra da lei do silêncio não serão aplicadas aos cultos religiosos’’, afirmou o presidente do Conselho Nacional dos Pastores do Brasil, Manoel Ferreira.

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