BRASÍLIA - O presidente Fernando Henrique Cardoso comandará esta semana duas ofensivas. A primeira será junto à opinião pública, com um pronunciamento à Nação para tentar reverter os prejuízos à imagem do governo causados pelo escândalo da compra de votos para aprovar a reeleição. A segunda terá como alvo o Congresso, com o objetivo de liquidar de vez articulação das oposições para criar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a investigar as denúncias do comércio de votos, e manter o cronograma de votação das reformas.
Governistas rebeldes já estão sendo convocados ao Palácio do Planalto. ‘‘Vamos para a guerra’’, resume o líder do governo na Câmara, Benito Gama (PFL-BA), convicto de que a ‘‘inexistência de fatos novos’’ sobre o escândalo já favorece o Executivo. Para garantir o sucesso da operação política do Planalto, o presidente escalou o senador Íris Resende (PMDB-GO), que será empossado quinta-feira no Ministério da Justiça, e o deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS), que assumirá o comando dos Transportes. ‘‘Até a cerimônia de posse, os dois ministros vão centrar fogo nos contatos com parlamentares para enquadrar o PMDB’’, informa um líder governista. ‘‘E desta vez o governo vai jogar duro’’, avisa o aliado.
Além de preparar seu discurso em cadeia de rádio e televisão, Fernando Henrique vai conversar pessoalmente com parlamentares do PMDB para demovê-los da idéia de assinar o requerimento em favor da CPI. O PMDB da Paraíba, que já deu muito trabalho ao governo, deve abrir a lista de convidados. O senador Ronaldo Cunha Lima (PMDB-PB) está na relação das audiências desta terça-feira.
Não é por acaso que Fernando Henrique se dispôs a trabalhar. Seus colaboradores mais próximos avaliam que a precipitação da corrida sucessória rumo ao Planalto vai infernizar a vida do presidente e a rotina do governo. ‘‘Vem aí um período de sobressaltos’’, prevê um interlocutor palaciano.
‘‘Desde que a sucessão foi para a rua, o Planalto virou alvo das oposições porque elas não têm chance eleitoral alguma sem desestabilizar o governo’’, avalia o ministro dos Assuntos Políticos, Luiz Carlos Santos. ‘‘A oposição não quer CPI, quer um palanque para fazer campanha’’, acusa o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), certo de que a CPI faz parte da ‘‘estratégia desestabilizadora’’ das esquerdas.
As oposições já contabilizam 218 assinaturas para apresentar a proposta de criação da CPI dos Votos e começam a trabalhar uma fórmula para furar a fila das CPIs e garantir a abertura imediata da investigação. ‘‘Estamos nos articulando para aprovar um projeto de resolução requerendo urgência urgentíssima para a CPI’’, diz o deputado José Genoíno (PT-SP). ‘‘A tarefa não é fácil, mas temos boas possibilidades de êxito’’, avalia o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), ao lembrar que será preciso reunir o mínimo de 257 votos para aprovar o projeto de resolução.
A comissão de sindicância da Câmara que apura a venda de votos a favor da reeleição deverá propor que o Ministério Público investigue a atuação do ministro das Comunicações, Sérgio Motta, citado como integrante da operação. A exclusão do nome de Motta do relatório final dos trabalhos foi descartada numa reunião reservada da comissão na última quinta-feira.

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