Extremamente preocupado com a preservação da aliança governista em 2002, o presidente Fernando Henrique Cardoso começou a apostar na solução de dois grandes temas para alavancar urgentemente sua popularidade e com isso recuperar seu poder de comando na aliança: uma resposta eficaz do seu governo para a crise energética do País e uma posição firme do Congresso pela cassação dos senadores Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) e José Roberto Arruda (sem partido-DF).
Em conversas reservadas, Fernando Henrique tem demonstrado seu temor com o atual quadro político do País. A avaliação do presidente é de que a aliança vive o seu momento de maior tensão, correndo até mesmo o risco de uma implosão das forças que o apóiam, fato que seria fatal para os últimos 18 meses de governo. ‘‘Esse é o pior momento político dos meus seis anos de mandato’’, reconheceu FHC, numa recente conversa com um aliado. Com assessores próximos, o presidente chegou a desenhar dois cenários para a reta final de seu governo: um bom e outro ruim.
No cenário mais otimista, a cassação de ACM seria resolvida ainda nesta semana com a renúncia do pefelista. O risco do apagão ficaria reduzido e os transtornos da crise energética seriam bem menores do que a imprensa chegou a noticiar.
Neste mesmo quadro, uma parcela da reforma tributária prevista inicialmente seria retomada, sinalizando ao mercado que o governo não está paralisado. Mesmo assim, o presidente descarta qualquer hipótese de concluir a privatização do setor elétrico em qualquer um dos cenários.
Com essas condições favoráveis, o presidente espera retomar a confiança da população em seu governo e com isso conseguir reaglutinar rapidamente as forças políticas aliadas. Isso daria uma folga suficiente ao Planalto e evitaria uma antecipação de uma reforma ministerial. Fernando Henrique também ficaria livre do lançamento imediato de um candidato presidencial para unir a sua base política. Ele sabe que uma candidatura precoce desgastaria qualquer nome. O presidenciável mais forte do Palácio do Planalto é o ministro da Saúde, José Serra.
O governo está torcendo e apostando todas as fichas neste primeiro cenário. ‘‘Acho que o Senado terá sintonia com a opinião pública e as medidas para enfrentar a crise energética serão suportáveis’’, observa o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga. ‘‘O governo agora precisa demonstrar uma ação eficiente de gerenciar o problema energético; é isto que a população está esperando’’, argumenta. ‘‘Com os problemas superados, haverá uma convergência natural em torno do governo e uma reaproximação dos aliados.’’
Pimenta lembra que nas eleições de 1998 o governo viveu situação semelhante, quando enfrentou uma grave crise econômica. ‘‘Se fizermos as coisas certas, todos voltam.’’ O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira, faz uma avaliação semelhante. ‘‘A crise energética tem uma influência decisiva porque será a primeira intervenção do governo na vida da população desde a implantação da URV, em 1994’’, avalia Aloysio.
Para ele, a esperança do governo é ter um bom desempenho neste episódio e com isso fortalecer a posição do presidente. ‘‘Estamos administrando um momento de travessia e precisamos manter os partidos unidos até a escolha de um candidato presidencial da base’’, explica. Para ele, a definição de candidatura acontecerá no final do ano.
Mesmo assim, o Planalto admite a possibilidade de um quadro bem diferente do que foi planejado como ideal. ‘‘Num cenário ruim, a base aliada se desintegraria’’, admite Pimenta. Este cenário seria marcado por dois episódios: o descontrole da crise energética e um recuo do Senado na cassação de ACM e Arruda.
Nesta situação, o Planalto seria obrigado a tomar medidas políticas de emergência para manter a sobrevida do governo. Entre as iniciativas cogitadas, está a antecipação da reforma ministerial para reagrupar os aliados no governo. A outra medida seria o lançamento imediato de uma candidatura presidencial, mesmo com o risco de sofrer um desgaste.

mockup