FHC admite cortes com derrota no STF
Augusto Gazir
Agência Folha
De Goiás
O presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou ontem, em visita a Rio Verde (GO), que o governo terá de cortar na carne e diminuir programas orçamentários por causa da decisão do STF (Supremo Tribunal Federal). Certamente, o ajuste fiscal não vai sofrer nada, disse FHC no aeroporto da cidade, antes de embarcar para o Rio de Janeiro. É uma decisão que leva à diminuição de alguns programas, ou o Congresso vai resolver o que fazer, porque o ajuste vai ficar. O STF decidiu ontem pela inconstitucionalidade da contribuição previdenciária de servidores inativos e do aumento da contribuição dos ativos. O governo contava com a medida, aprovada pelo Congresso, para aumentar sua receita.
FHC afirmou que viu a decisão com naturalidade e que de forma alguma a sentença do STF teve cunho político, motivada pelas recentes divergências entre os Poderes sobre o teto salarial do funcionalismo. O Supremo decidiu por razões técnicas. O Supremo tomou a decisão por motivos dele. Não temos de estar discutindo decisão do Supremo. Temos que ver como é que vamos agora obter recursos para que os programas não sejam prejudicados, disse.
O senador Íris Rezende (PMDB-GO) viajou com FHC no avião presidencial até Rio Verde, localizada no Sudoeste de Goiás, a 180 km de Goiânia. Segundo Íris, o presidente classificou a decisão do STF como um desastre durante o vôo. Em entrevista, o presidente disse que nunca encara as coisas como um desastre, porque o Brasil tem alternativas.
A reportagem apurou que FHC ficou desapontado com a sentença, que veio no momento que o governo avaliava como o início de uma boa fase econômica e política. O governo já estuda os cortes nos programas, que em princípio não envolveriam a área social. O custo da sentença vai ser diluído, sem ser todo direcionado aos militares, com o aumento de sua contribuição.
FHC afirmou que o governo tem meios para compensar a perda e manter o ajuste. Vamos conversar com nossos líderes e ministros, e vamos enfrentar o que for necessário. Para ele, o aspecto mais grave da situação é o fato de a Constituição vedar a taxação de inativos. Ele disse que isso é complicado e não é responsabilidade do STF. A pessoa agora quando se aposenta vai ganhar mais do que quem trabalha. Quem trabalha paga 11%, quando vai se aposentar deixa de pagar. É um incentivo para se aposentar. Isso não está certo.
O presidente pode se encontrar com o ministro Pedro Malan (Fazenda) durante o fim-de-semana, no Rio. FHC não confirmou a reunião. O presidente esteve em Rio Verde para inaugurar e visitar a fábrica de derivados de tomate da Gessy Lever. Durante discurso, ele criticou os pessimistas choramingueiros, que sempre olham enviesadamente para ver o que está errado. É bom quem toma consciência do que está errado, mas para corrigir, e não para no fundo do coração sentir um gostinho de prazer pelo erro do outro.
FHC disse ter muitos defeitos, mas que não desanima. E mesmo quando haja injustiça, elas não marcam minha alma, porque meus olhos estão voltados para o futuro do Brasil. Não estão voltados para um, dois mandatos. Não estão voltados sequer para uma biografia.Presidente considera que decisão sobre inativos é indiscutível, que ajuste não está abalado, mas que terá que fazer adaptações
Arquivo FolhaPONTA DO LÁPISFernando Henrique: Vamos conversar com nossos líderes e vamos enfrentar o que for necessário para tentar compensar perda de fonte de recursos que resultaria em cerca de R$ 2,5 bilhões





