O presidente Fernando Henrique Cardoso acusou ontem a oposição de estar ‘‘levianamente’’ banalizando o instrumento do impeachment por fatos que são ‘‘tranquilos e serenos’’ e tentar ‘‘transformar esse País numa terra sem lei, sem justiça’’. Foi a primeira manifestação pública depois da publicação, há quatro dias, de notícias apontando o suposto envolvimento dele no favorecimento ao Banco Opportunity durante o processo de privatização do Sistema Telebrás. O discurso, de 20 minutos, foi feito durante a solenidade de assinatura da MP do crédito educativo, no Planalto.
O presidente queixou-se da falta de reconhecimento do ‘‘imenso esforço que está sendo feito, dia a dia, neste País’’, não só por ele ou pelos ministros, mas pela ‘‘sociedade inteira’’. Ele pediu que a sociedade seja capaz de ‘‘enfrentar desafios grandes, enraizar a democracia, separar o que é abuso do que é crítica, o que é verdade do que é suspeita, a suspeita que tem fundamento da suspeita que não tem nenhum (fundamento).’’
‘‘Tenho certeza que esse é o único caminho que nos levará a evitar no futuro que pessoas de boa-fé, trabalhadores que têm sua vida dedicada, sejam postas no pelourinho.’’ De acordo com FHC, o único caminho para essa mudança é a educação e não apenas o crescimento econômico ou a distribuição de renda. ‘‘Mais educação inspirada na consciência de uma forte motivação moral que não confunde nunca o interesse particular com o público’’, disse. Ele afirmou que isso vale tanto para os que exercem funções públicas como aos que as criticam.
Segundo FHC, setores do País e da oposição estão confundindo o instituto do impeachment com uma transgressão de código de trânsito, com multas a toda hora. ‘‘Meu Deus!; há limites da paciência nacional’’, afirmou, referindo-se, em seguida, à forma ‘‘leviana’’ como vêm sendo tratadas as supostas denúncias contra ele. ‘‘São fatos tranquilos, serenos, que podem ser julgados, podem até estar errados, mas que não podem ser objetos de utilização pela paixão política’’.
FHC afirmou que não há nada ‘‘no governo e na vida que responda ao julgamento tranquilo da história que não tenha fundamento moral’’. ‘‘Eu me orgulho de dizer que este governo é um governo de moral, que cumpre, dentro do possível, o que diz que é necessário, seu programa, da maneira mais transparente possível, e sempre que possível’’. Para FHC, por ser um governo ‘‘que tem na moral seu fundamento’’, o Executivo não pode ‘‘transigir com as leviandades, com as interpretações malévolas, com as insinuações, distorções, seja lá de quem for’’.
Fernando Henrique argumentou que não é possível aceitar isso, principalmente quando são ‘‘aleivosias sobre o presidente e quando se tenta banalizar a apropriação da privacidade de alguém simplesmente para fazer barulho ou como ensejo para banalizar um instrumento constitucional da maior respeitabilidade’’. FHC afirmou ter satisfação de dizer que chega aos 68 anos (que completará no dia 18) sem qualquer suspeição sobre sua conduta pública. ‘‘Nunca, friso, nunca tive qualquer coisa, mais remota, que pusesse em suspeição algum interesse no exercício do cargo público que não fosse o do povo, o do meu País, nunca’’, disse.

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