O presidente Fernando Henrique Cardoso acusou ontem o Movimento dos Sem-Terra (MST) de chantageá-lo com a ameaça de invasão da fazenda de seus filhos em Buritis (MG) e de ter se transformado em um movimento político que desafia a sua autoridade e a ordem democrática. ‘‘A questão de Buritis não é de terra, eles estão lá porque eu frequento lᒒ, disse. ‘‘O que não posso aceitar é chantagem, ou seja, a exigência descabida de mais R$ 2 mil para quem já recebeu R$ 25 mil, de graça, a fundo perdido.’’
Em visita ao Rio para abrir o Fórum Abras de Varejo, exposição anual da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) no Riocentro, Fernando Henrique afirmou que os sem-terra poderiam pedir financiamentos no Pronaf (programa de apoio a pequenos produtores), mas não o fazem, ‘‘porque querem dinheiro permanente, como se fossem funcionários públicos.’’ Ele declarou não reconhecer pressões de um movimento que não se mostrou ‘‘nem democrático, nem responsável’’. ‘‘Ninguém pode ameaçar a autoridade, esse é o ponto, não a questão da terra’’, afirmou o presidente, diferenciando o problema da fazenda de sua família da invasão ocorrida ontem no Pontal do Paranapanema, em outra fazenda de Jovelino Mineiro, sócio na propriedade de Buritis.
‘‘São Paulo é uma questão do Ministério do Desenvolvimento Agrário, da polícia, de propriedade; a outra não, é uma questão de que não se pode, numa democracia, desrespeitar a autoridade constituída e (fazer) chantagem.’’ O presidente afirmou que o uso de crianças nas manifestações é uma violação do Estatuto da Criança e do Adolescente e uma ‘‘irresponsabilidade’’. ‘‘Lamento apenas a omissão do governo de Minas, porque deveria estar tomando conta disso’’, atacou.
Ele disse que o símbolo que está sendo desrespeitado pelos sem-terra em Buritis ‘‘é a autoridade do presidente’’. ‘‘Esteja onde estiver o presidente, ou o governador, ou uma pessoa (qualquer), tem que ser respeitado’’, declarou. ‘‘Quando se desrespeita a figura de quem foi eleito com 35 milhões de votos, aí sim se desrespeita a autoridade presidencial.’’
Segundo Fernando Henrique, não é possível aceitar que alguém diga: ‘‘Ou faz isso ou quebro sua casa’’. ‘‘Se eu morasse numa casa alugada, era a mesma coisa, não pode entrar, não é pelo cidadão, é pelo presidente, pelo governador ou uma autoridade’’, declarou. Ele disse que o mundo poderá ficar com a impressão de que no Brasil não há condição de convivência democrática. ‘‘E eu sou contra também que os latifundiários se armem’’, disse. ‘‘Não pode também.’’ O presidente disse que os partidos que tradicionalmente se alinham ao MST não estão apoiando as ameaças.
‘‘Qualquer pessoa que desacata a autoridade constituída tem que ser objeto de inquérito’’, afirmou, ao comentar a destruição de uma câmera que os sem-terra tomaram de um homem que seria da Agência Brasileira de Inteligência e filmava a manifestação de Buritis. ‘‘E se for agressão, no momento, é prisão em flagrante, a lei é a lei.’’

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