Curitiba - O 33º partido político brasileiro pode, enfim, ser "ela". Idealizado pela filósofa e escritora Márcia Tiburi, um movimento que busca reverter a "lógica" de sub-representação das mulheres começa a ganhar corpo no País. As primeiras reuniões da #partidA, sugestivo nome da nova legenda, aconteceram no fim de maio e em junho, em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Mas já há encontros programados em Goiás, Santa Catarina, Minas Gerais, Tocantins, no Distrito Federal e no Paraná. A expectativa é, num futuro próximo, conseguir o registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para disputar (e ganhar) eleições. Atualmente, 32 siglas são consideradas oficiais pelo TSE, conta que não inclui, por exemplo, a Rede Sustentabilidade, da ex-senadora Marina Silva.
"O movimento surgiu e vem dando certo porque ele revela um sentimento geral de insatisfação em relação à onda autoritária e ao clima conservador que se verifica neste momento – tanto no plano da cultura cotidiana como no da política", disse Tiburi, em entrevista por telefone à FOLHA. Segundo ela, a ideia é acolher pessoas que, independentemente de gênero – homens também podem participar -, identidade ou orientação sexual, estejam dispostas a construir uma nova ético-política, com o afeto se sobrepondo ao ódio. "Existe alguma coisa em comum entre todos os feminismos, que é a defesa de uma sociedade mais justa, honesta, agradável de se viver, onde mulheres – e outras individualidades ou grupos excluídos do poder – estejam inclusas", afirmou.
A criação da #partidA se dá no mesmo momento em que o Congresso Nacional volta a debater a adoção de cotas para mulheres nos parlamentos brasileiros. No dia 16 de junho, a Câmara Federal, composta por 462 deputados e apenas 51 deputadas (o que corresponde a menos de 10%), rejeitou a proposta de reserva de 15% das vagas, inferior aos 30% defendidos pela bancada feminina. Nas próximas semanas, o Senado deve avaliar medida semelhante. A Casa, contudo, também é dominada por homens: eles ocupam 69 das 81 cadeiras, incluindo a presidência, mesmo representando 48,86% da população, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É esse tipo de paradigma que o movimento pretende quebrar.
"A negação das cotas, por um lado, é muito triste, mas por outro fortalece o norte da nossa #partidA. Ou seja, temos muito por que lutar e os esforços não serão poucos", garantiu a escritora. Hoje filiada ao Psol, partido com o qual diz se identificar, ela avaliou que o registro no TSE é algo a se buscar, entretanto, que uma eventual demora, como no caso de Marina Silva, não diminuiria em nada a força da mobilização. "Nós faremos campanhas para feministas – sejam feministas mulheres, feministas trans, ‘feministas homens’ -, pessoas que não estão preocupadas só com a luta de gênero, mas também com a luta racial e de classe", explicou.

Como por enquanto a sigla não possui um site ou telefone, a convocação tem ocorrido de maneira mais informal. Quem tem interesse em se envolver pode curtir a página da #partidA no Facebook, dialogando com outras participantes.

"A adesão tem sido impressionante. Há uma angústia e ao mesmo tempo um desejo de transformação muito forte de quem está chegando. É uma coisa muito bonita, porque é um espaço aberto. Tem gente das mais diversas profissões e classes sociais; jovens e feministas históricas, que juntas estão criando o próprio movimento", acrescentou Tiburi.

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