James Alberti
De Curitiba
O traficante carioca Luiz Fernando da Costa, conhecido como Fernandinho Beira-Mar, mantém um ponto de revenda de drogas em Curitiba. A atuação de um grupo ligado a Beira-Mar no Estado estaria sendo investigada pela Superintendência da Polícia Federal no Paraná. Um homem identificado como Jaime Amato seria apontado nas investigações como o braço-direito do traficante carioca no Paraná. De um escritório em Curitiba, Amato administraria o transporte de droga do Paraguai para Foz do Iguaçu e de lá para Curitiba. Segundo apurou a Folha, o empresário já foi fotografado e filmado na capital.
O delegado Luiz Melzer, da Polícia Federal de Curitiba, evita falar sobre a informação apurada pelo jornal. ‘‘Me reservo o direito de não prestar este tipo de informação. É uma área muito complicada’’, justificou o delegado. Melzer afirmou ainda que a confirmação poderia ‘‘trazer prejuízo para as investigações’’. A declaração do delegado sugere que a PF possui uma investigação em andamento.
O traficante Fernandinho Beira-Mar é peça-chave nas investigações da CPI do Narcotráfico, que apura a ação do crime organizado no País. O ponto de venda de droga de Beira-Mar em Curitiba fornece mais elementos para a comissão parlamentar apurar no Paraná. Conforme levantamento da polícia, cerca de 40% de toda a droga que entra no Rio de Janeiro pertence a Beira-Mar.
No Mato Grosso do Sul, a Polícia Federal apreendeu 30 toneladas de maconha neste ano. Deste total, 90% seria produzido em uma fazenda do brasileiro Ramon Morel, que vive no Paraguai, e destinadas a Beira-Mar. Para chegar ao Rio de Janeiro, a droga passaria pelo Paraná. Segundo levantamento da Polícia Federal, os carregamentos são transportados por caminhões e camionetas. A rota passa pelos Estados do Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo antes de chegar ao Rio de Janeiro.
O delegado-geral da Polícia Civil, João Ricardo Képes Noronha, disse ontem que não acredita que haja no Paraná alguma conexão nacional ou internacional do tráfico de drogas. Ele defende, assim, a mesma posição do secretário da Segurança Pública, Cândido Martins de Oliveira. Para Noronha, as reportagens relacionando o Estado ao narcotráfico seriam especulações ou uma tentativa de ‘‘auto-promoção de quem está fornecendo as informações’’.
O delegado-geral argumenta que trabalhou dois anos na delegacia de Anti-Tóxicos, dez meses na delegacia de Foz do Iguaçu e quatro anos no Centro de Operações Policiais Especiais (Cope) sem nunca ter vislumbrado qualquer pista de que o Paraná fizesse parte do narcotráfico. ‘‘Pode ser rota do tráfico’’, admite.
Essa não é, no entanto, a posição do delegado que investiga o tráfico de drogas no Estado. Com medo de ter seu nome divulgado, o delegado revela que investiga uma quadrilha que atua no Paraná e tem conexões com traficantes dos Estados do Mato Grosso do Sul, São Paulo, Goiás, Mato Grosso e Paraguai.
A quadrilha paranaense, conforme afirma o delegado, troca carros roubados no Estado por cocaína. Os carros são levados do Paraná para o Mato Grosso do Sul e de lá para a Bolívia, onde são trocados pela droga. A cocaína retorna ao Paraná, sendo que parte dela é levada para Santa Catarina e entregue para um traficante de entorpecentes e armas.
Existe possibilidade também de os crimes cometidos no Paraná terem ligação aos da quadrilha liderada pelo empresário campineiro Willian Walder Sozza. Um delegado ouvido pela Folha na semana passada afirmou ter gravado conversas telefônicas entre um traficante do Paraná com Sozza, que está foragido da polícia desde que sua prisão foi decretada há 26 dias. As gravações foram entregues à Justiça, mas o traficante não foi preso.
A CPI do Narcotráfico também deverá investigar o envolvimento de policiais paranaenses no crime organizado. Em 1997, o então delegado da Delegacia de Antitóxicos, Adauto Abreu de Oliveira, afirmou que pelo menos 33 policiais estão ligados ao tráfico de drogas. Só não há provas para incriminá-los, coisa que a comissão parlamentar tem obtido nos Estados por onde tem passado. Um levantamento detalhando de cidades e as ações do crime organizado no Paraná deve ajudar no trabalho da CPI. O levantamento preliminar começou a ser feito há cerca de 25 dias. (Colaborou Carmem Murara).

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