Albari RosaMigraçãoMarina Taniguchi: ‘‘Eu sempre brinco que nunca vi ninguém chegar à cidade com um folheto de propaganda de Curitiba na mão’’FAS prepara mão-de-obra em Curitiba
Além de se ocupar com meninos de rua, órgão ligado à prefeitura de Curitiba oferece cursos a carentes que chegam à cidade
Adriana Ribeiro
Folha - A FAS surgiu como um órgão de assistência social, mantido pela Prefeitura, para fazer frente às necessidades mais emergentes da população. Frequentemente, porém, sua atuação é confundida com assistencialismo, prática que não contribui para alterar a realidade, apenas para amenizá-la. Como a FAS separa o mero assistencialismo da verdadeira ação social?
Marina - Nós tentamos organizar os programas de uma forma mais coerente. Tínhamos diversos programas, mas eles não eram fechados. Nós entrelaçamos todos esses programas e modificamos algumas coisas para que os programas pudessem dar maiores resultados. Agora, de uma forma bem mais organizada, nós dirigimos nosso trabalho em três áreas, primeiro de atendimento emergencial, que não deixa de ser assistencialista. Depois tentamos inserir as pessoas em outros programas para que elas melhorem sua qualidade de vida, o que chamamos de resgate social, um atendimento que faz com que elas possam ser reinseridas na sociedade. E a terceira área, que a gente modificou bastante, é a de cursos profissionalizantes, para que as pessoas sejam preparadas para o mercado de trabalho. Nós temos diversos cursos profissionalizantes e, agora, procuramos achar nichos de mercado, onde a pessoa possa atuar. Para isso sempre fazemos contatos com sindicatos patronais e de trabalhadores, que nos indicam onde há necessidades de profissionais.
Folha - Quantos cursos a FAS oferece e quantas pessoas são beneficiadas por eles?
Marina - A FAS tem mais de 60 tipos de cursos, com mais de 250 turmas. Eles ficam disponibilizados em todas as Ruas da Cidadania e nos Liceus. Nós formamos, em média, 15 mil alunos por ano nesses cursos. Há os convencionais, porque ainda têm bastante aceitação, mas temos cursos de informática, administração, vendas, auxiliar de pedreiro, panificação, doceria, cabeleireiro e manicure, restauração de móveis. No ano passado, para o Festival de Teatro, conseguimos identificar que não havia pessoal capacitado para atuar na área técnica de iluminação e som. Essas pessoas tinham que vir de São Paulo. Então fizemos um curso de sonoplastia, iluminação de teatro e de cenotecnia. As pessoas que fizeram o curso foram contratadas pelo Teatro Guaíra. Para participar dos cursos é cobrada apenas uma taxa simbólica, que evita que os interessados vão um ou dois dias e depois desistam.
Folha - Sem a participação da sociedade organizada, é quase impossível ao poder público atuar no campo social, além do que já lhe cabe por obrigação constitucional, como prover saúde e educação de qualidade à população. As parcerias com a iniciativa privada caminham a contento ou ainda falta mais participação?
Marina - A FAS é como se fosse uma secretaria da prefeitura. As ações da fundação são realizadas com recursos da administração municipal ou do governo federal, porque eles têm destinação específica. Do governo federal temos recursos para os portadores de deficiência, crianças em situação de risco. Mas, paralelamente, nós temos o Instituto Pró-Cidadania que é uma organização não-governamental, criada para auxiliar o setor público. Normalmente o instituto é presidido pela mulher do prefeito e só tem recursos da comunidade, da iniciativa privada ou de pessoas físicas que oferecem dinheiro, comida, brinquedos. Temos uma participação grande das empresas e da sociedade como um todo. Acho que a população está bastante sensibilizada. Mas, claro, a gente poderia fazer muito mais. Um exemplo é uma empresa que doou dois mil pares de sapatos novos que foram vendidos a preços simbólicos e que garantiram a compra de dez televisores e dez videocassetes para asilos da cidade.
Folha - Nos últimos anos, a falta de trabalho no campo e, em certa medida, a boa fama de Curitiba de ser uma cidade com oportunidade de trabalho para todos, fez com que migrassem para cá numerosos contingentes de trabalhadores sem qualificação. Até que ponto o marketing da capital ecológica influiu para isso? Como se faz para, ao menos, estabilizar essa situação?
Marina - Eu sempre brinco que nunca vi ninguém chegar à cidade com um folheto de propaganda de Curitiba na mão. As pessoas não chegam por causa da qualidade de vida. Muita gente vem em busca de assistência médica de grandes centros. Não é só em Curitiba e Londrina. Maringá e Cascavel também estão inchando. O pessoal chega à Curitiba e, por piorar que seja a situação, é melhor do que onde ele estava, e ele não quer mais voltar. Aí ele cria um problema, sem qualificação profissional e escolaridade, precisa de um emprego. Com isso ficamos com esse pessoal vivendo na periferia.
Folha - Então a senhora não acredita que a propaganda que coloca Curitiba como a melhor cidade para se viver provocou a vinda de muita gente para Curitiba?
Marina - Temos uns dados que acho importantes. Curitiba tem 48% de chefes de família que ganham menos de três salários mínimos. Isso significa que Curitiba é uma cidade de pobres. As pessoas não falam isso e dão a impressão de que a cidade é de ricos. Temos gente muito carente, que foi expulsa da área mais central. Um levantamento recente da Cohab nas áreas de ocupação ilegal nos deixou surpresos: mais de 50% das pessoas que moravam nessas áreas são curitibanos que compraram os terrenos de invasores, profissionais, que chegaram à cidade. Então é um empobrecimento da população também. Se Curitiba não tivesse investido há muito tempo na área de transporte, loteamentos populares e programas de assistência em várias secretarias, teríamos problemas tão graves como em São Paulo e no Rio de Janeiro. Isso tudo fez com que essa demanda social não fosse tão grande.
Folha - Que ações a prefeitura adota para tentar amenizar a situação precária das pessoas carentes que vivem ou chegam à cidade?
Marina - A prefeitura fornece cesta básica 30% mais barata para essas famílias. Hoje a Secretaria da Criança atende mais de 23 mil crianças em creches e crianças de rua em situação de risco. A Secretaria do Abastecimento fornece cesta básica nos Armazéns da Família. Temos 70 mil famílias cadastradas que usam esses armazéns, depois de comprovarem uma renda de até 3 salários mínimos. Temos a Refeição Solidária, que são as doações de sobras de empresas e buffets que repassam diretamente para a comunidade carente; e o Direto da Roça, que são legumes e verduras colocados à venda diretamente pelo agricultor. Há ainda a troca do lixo reciclável por comida. Para as pessoas que chegam, temos na Rodoferroviária a Casa do Regresso, que encaminha os carentes para albergues. Nós possibilitamos também sua volta para suas cidades, comprando passagens. Mas na maioria dos casos essas pessoas não querem mais voltar depois de chegar à cidade grande. Por isso desenvolvemos esses cursos profissionalizantes, que ajudam a inserir essas pessoas no mercado e não criar novos problemas.
Folha - A senhora acredita que a chegada das montadoras piorou o inchaço da cidade?
Marina - Acho que houve necessidade de profissionais que não estavam disponíveis no mercado. O maior número de pessoas que veio foi de técnicos altamente qualificados. Mas ao mesmo tempo, essas pessoas também contribuem para gerar outros empregos. Uma mulher que vem da França vai precisar de uma empregada doméstica, de um cabelereiro, massagista, escola para os filhos. Não acho que seja ruim, porque essas pessoas contribuem para a geração de empregos, mesmo que seja para quem não tem tanta qualificação.
Folha - Uma questão que, para o curitibano, é novidade, é a dos sem-teto. Temos, de um lado, multidões que invadem terrenos, quase sempre à beira de nascentes de água, e de lá só saem pela força da polícia. A prefeitura tem programas para atacar esse problema? E os sem-teto que simplesmente moram na rua? O que a FAS pode fazer para acabar com esse problema?
Marina - Nós sempre atuamos para atender as pessoas que estão em situação de risco ou desabrigadas. Nas áreas invadidas, a prefeitura não tem poder de polícia. Ela só pode convidar as pessoas a participar dos programas. Muitas delas estão nas ruas, mas a maioria é muito comprometida com o alcoolismo. Para participar de algum programa de atendimento elas devem ter alguns procedimentos, como não beber, tomar banho, o que é muito difícil. Na Fazenda Solidariedade, que trata de alcoolistas e drogados e tem capacidade para 300 pessoas, nós não conseguimos fazer com que essas pessoas fiquem no local. Agora no verão são poucos os que permanecem, porque muitos vão para as praias onde conseguem mais esmolas.
Folha - Se não é incontrolável, a questão dos meninos de rua se avoluma em Curitiba, com o agravante que a capital recebe crianças de municípios da Região Metropolitana. Quantos meninos de rua temos na cidade?
Marina - Não tenho o número de menores de rua na cidade. Esse levantamento é feito pela Secretaria da Criança. Mas dos menores de rua que são mesmo de Curitiba, fizemos com a maioria um trabalho de resgate e tentamos colocá-los em programas, como os Piás, Formando Cidadão, que é feito junto com o Exército, a polícia e a Associação Atlética Banco do Brasil. Essas crianças participam no período de contraturno da escola e podem integrar turmas especiais para aceleração da aprendizagem porque sempre estão defasadas nos estudos. Os que não têm vínculo familiar são atendidos em repúblicas. Então, Curitiba tem condições de absorver todo esse pessoal e tem equipamento para o atendimento. Já para os que não moram na capital, a responsabilidade de implantar esses serviços é de seus municípios de origem. É aí que começa um problema. Quando as crianças voltam para suas cidades através dos conselhos tutelares e não encontram as mesmas condições, elas acabam voltando para Curitiba. Hoje estamos fazendo contatos com as prefeituras para a montagem dessas estruturas, mesmo que seja com a ajuda da administração de Curitiba. Não precisa ser um equipamento em cada município. Achamos que poderia ser um consórcio que possa ser usado por todos os municípios, que comprariam vagas. Temos trabalhado com os conselhos tutelares e com o Ministério Público porque há muitas crianças nas ruas, mas que são trazidas para a cidade pelas próprias mães ou pais para pedir esmolas.
Folha - Já existe algo concreto para a criação desse consórcio? De onde seriam oriundos os recursos?
Marina - Os contatos com as prefeituras já foram feitos e o primeiro resultado que tivemos foi a ação da Secretaria da Criança de Curitiba com a Prefeitura de Almirante Tamandaré, que conseguiu identificar no centro da capital os pais que exploravam crianças. Já contatamos os conselhos tutelares e a partir daí precisamos identifificar onde deveremos agir juntos. Já tivemos uma reunião com a Secretaria Estadual da Criança e com as primeiras-damas dos municípios mais problemáticos. Estamos agora na fase de levantamento de dados para depois fazer alguma negociação. Acreditamos que em 1999 já tenhamos alguma coisa. A Prefeitura de Curitiba tem interesse de fazer com que os municípios ofereçam esses equipamentos para que essas pessoas não venham para a capital. A Prefeitura de Curitiba não tem condições de oferecer a ajuda financeira, mas pelo Instituto Pró-Cidadania, que recolhe doações, podemos viabilizar parcerias com a sociedade.
Folha - Qual é o pior problema social de Curitiba?
Marina - Obviamente, acho que hoje é o emprego. Mas é o formal, aquele em que a pessoa é registrada e bate cartão. Acho que o emprego está mudando seu aspecto e isso não é só em Curitiba, é no mundo todo. As pessoas ainda não descobriram uma outra forma de emprego e não sabem que existem alternativas que dão certo. Em Curitiba, por exemplo, tínhamos pessoas carentes que participavam de frentes de trabalho, recebendo pouco. Então decidimos criar a Cooperativa dos Trabalhadores Autônomos de Curitiba, que tem hoje cerca de 350 associados. Elas foram treinadas para abrir valetas, fazer jardinagem e agora estão fazendo curso de pintura de casa. Todos eles têm alvará como autônomo, recolhem INSS, têm seguro de acidentes de trabalho, seguro-funeral e recebem cerca de R$ 300 por mês. Também formamos uma cooperativa dos catadores de papel, que hoje somam cerca de quatro mil na cidade. Eles pediram que sejam chamados de coletadores de material reciclável, o que mostra que estão recuperando a auto-estima. Quando isso acontece percebemos que está havendo o resgate social. Vendemos o material para eles em quantidade maior e conseguimos um preço melhor.
Folha - Qual é o orçamento da FAS e do Pró-Cidadania para no ano que vem?
Marina - FAS tem um recurso orçamentário na ordem de R$ 12 a R$ 13 milhões por ano. É o mesmo recurso deste ano, mas acho que com criatividade estamos podendo fazer bem mais coisas. Já o instituto não tem um valor fixo e depende da boa vontade das pessoas. Por ano temos algo em torno de R$ 1 a R$ 2 milhões.
Folha - Com sua entrada no meio político, a senhora pretende ser candidata nas próximas eleições?
Marina - Não, acho que não. Vim para a área política por causa do Cassio (Taniguchi, prefeito de Curitiba). Não podemos dizer que não vamos fazer isso ou aquilo, mas atualmente não tenho nenhuma pretensão política.

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