Maurício Fruet adicionou à sua biografia um componente desconhecido do eleitorado jovem. Era um brincalhão incorrigível, quase irresponsável, que não escolhia a vítima - bastava-lhe a oportunidade, mesmo que não houvesse platéia. No rádio de Curitiba, onde começou a carreira, passando pela Câmara de Vereadores, Assembléia, Câmara Federal e Prefeitura, deixou um folclore inigualável.
Quando afastado da política, dedicando seu tempo à criação de ovinos em Agudos do Sul, tornou famosa a receita do ‘‘carneiro afrodisíaco’’, um assado que costumava servir em sua barraca na Feira do Paraná. Não-iniciados em Maurício Fruet saboreavam a iguaria certos de que o prato levava temperos exóticos como raspa de chifre de rinoceronte, que ele descrevia com sinceridade de humorista britânico. Era tão convincente que a receita chegou a ser publicada em jornal e a ir ao ar em rede de TV.
Deputados recém-eleitos para a Assembléia ou a Câmara Federal invariavelmente caíam nas esparrelas que Maurício, implacável, urdia pacientemente. Até os veteranos que o conheciam acabavam apanhados em suas armadilhas. Nelson Buffara, veterano na Assembléia, certa vez viu a casa invadida por colegas, familiares e jornalistas que haviam ido saborear a caranguejada para a qual ele os havia convidado. Quem era o portador do convite? Maurício Fruet, é claro.
Do deputado Alfredo Gulin, Fruet tirou cópias de um discurso que ele iria fazer. No momento certo, pediu um aparte e, ao tomar a palavra, leu o restante do discurso do colega, que, atônito, ficou sem ação. De outro deputado, misturou de tal maneira as páginas de um discurso que o pobre coitado teve de desculpar-se e encerrar por ali mesmo sua participação.
Em Brasília não foi diferente. Certa vez, indagado por um deputado do Nordeste sobre qual a melhor maneira de ganhar espaço no noticiário ‘‘A Voz do Brasil’’, sugeriu-lhe entregar um envelope com dinheiro ao editor. O jornalista quase agrediu o pobre deputado e Maurício, a essa altura, já estava bem longe. Quando deixava a Câmara, ‘‘vendeu’’ o mobiliário e o telefone - de propriedade da Casa - ao novo ocupante de seu gabinete. Finalizada a gozação, devolveu o dinheiro ao novato.
Às vezes, Maurício Fruet chegava às fronteiras da crueldade em suas brincadeiras. Certa ocasião, deu carona a um colega de Assembléia, ao qual pediu alguns minutos para visitar um paciente do Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Luz. ‘‘Trouxe um parente que está muito doente e precisa de internamento’’, disse aos médicos. ‘‘Só tenham cuidado porque ele tem acessos de fúria e, ainda por cima, diz que é deputado.’’ A bem pregada peça durou alguns minutos e o deputado só foi liberado quando estava prestes a ser sedado, urrando que era deputado e que aquilo não ficaria assim.
Pior foi quando Maurício Fruet retornava de Brasília a Curitiba, tendo ao lado um executivo gaúcho que iria no mesmo vôo até Porto Alegre. Fazendo-se passar por ex-funcionário da Varig, Maurício disse que também ia a Porto Alegre e, quando o avião se aproximava de Curitiba, começou a descrever problemas em uma das turbinas. Simulando nervosismo, disse que não arriscaria a vida e que desembarcaria em Curitiba mesmo, seguindo viagem de táxi. O pobre gaúcho desceu em Curitiba e foi de táxi para Porto Alegre, enquanto Maurício tomava o seu para casa.
Essas e dezenas de outras histórias estão reunidas num livro que Maurício Fruet estava finalizando, a ser lançado apenas depois de sua morte. São, mais que uma incomparável antologia de humor, um traço marcante da personalidade de um homem que soube aproveitar a vida como poucos. Suas vítimas, quase todas amigos que souberam relevar suas traquinagens, bem poderiam marcar um encontro, nada solene, para homenagear sua memória e relembrar suas histórias. Poderiam lotar um estádio.

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