Familiares reforçam supostas irregularidades na Acesf
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
A divulgação da investigação sobre venda forçada de tanatopraxia (técnica de conservação de corpos) na Administração de Cemitérios e Serviços Funerários de Londrina (Acesf), ontem pela imprensa, despertou uma onda de reclamações de famílias que passaram por situação semelhante. Logo pela manhã, a FOLHA e outros órgãos de imprensa começaram a receber ligações de pessoas que também relataram ter passado por coação de servidores da Acesf para comprar o serviço de tanatopraxia, que custa até R$ 1.800 e é feito por duas empresas particulares conveniadas à autarquia municipal. O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) investiga o pagamento de propina pelas empresas a funcionários da Acesf que forçam a venda do serviço para famílias que estão de luto.
O sentimento das famílias que procuraram a imprensa variam entre a revolta, a indignação e a tristeza. Logo pela manhã, uma merendeira que perdeu o marido no início do ano procurou uma rádio da cidade para relatar que também foi coagida por funcionários da Acesf. De acordo com ela, a ameaça foi feita mediante a informação de que se o serviço não fosse feito, poderiam vazar líquidos do cadáver durante o velório. De família humilde, a merendeira acabou aceitando, mas até hoje não conseguiu pagar os R$ 1.400. ''Ainda devo R$ 1 mil e eles me ligam quase todo dia cobrando'', contou ela, preferindo não se identificar. A viúva compareceu ainda pela manhã ao Gaeco e confirmou a denúncia em depoimento.
A FOLHA também conversou com uma professora que perdeu o pai há quase dois anos. Ela contou que o funcionário da Acesf ameaçou enterrar seu pai antes da chegada das irmãs à cidade se não comprasse a tanatopraxia. De acordo com ela, o funcionário inclusive participou da negociação financeira com o representante da empresa particular. Posteriormente, ela soube pelo médico de seu pai que a tanatopraxia não era necessária, entrou com processo na Justiça contra a empresa, mas até hoje aguarda julgamento. ''Eu me senti lesada porque a pressão foi muito grande e meu pai era uma pessoa muito amada. Ele (funcionário) percebeu a situação e se aproveitou. Eu espero que nunca mais uma família passe por isso'', afirmou.
Um servidor público municipal que também viveu situação semelhante disse que se sentiu ''desnorteado''.''Você está sensível e eles aproveitam. A pressão é demais.'' Uma doméstica moradora da Zona Norte contou que sua família resistiu ao achaque e não contratou o serviço. ''Mas houve ameaça: eles disseram que não se responsabilizavam pelo que ia acontecer no velório.''
Em todos os casos relatados acima, o sepultamento aconteceu menos de 24 após o falecimento - período inferior ao necessário para a realização da tanatopraxia. Estes familiares, sem exceção, concordaram em prestar depoimento ao Gaeco desde que seus nomes não fossem divulgados pela imprensa. Outros relatos que chegaram à FOLHA indicam que famílias carentes têm assinado promissórias para custear o serviço - e em outro caso, a recusa dos familiares levou à realização de um velório por apenas duas horas.


