Família abre acervo do maior líder do Araguaia
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domingo, 26 de dezembro de 2004
Por Valdir Sanches<br> Agência Estado 
Rio - Na casa da família Orlando da Costa havia um pequeno porão dissimulado em um dos quatro quartos, sob a cama. Nele, esteve escondida durante décadas uma parte da história do mais conhecido dos 11 filhos de José Orlando da Costa, fino cozinheiro, dono de padaria, conceituado cidadão de Passa Quatro, Minas.
Esse filho, Osvaldo, o mais jovem dos 11 irmãos, destacava-se em princípio por seu tamanho: chegaria a 1,98 metro. Com 16 anos deixou Passa Quatro, na divisa com a paulista Cruzeiro, no Vale do Paraíba. Foi para São Paulo, ganhar a vida e estudar. Mais tarde, no Rio, dedicou-se ao boxe e fez o CPOR, a escola de oficiais da reserva do Exército.
Em 1961, viajou para Praga, na então Tcheco-Eslováquia, de regime comunista (nas ruas, assombraria pessoas que nunca tinham visto um negro, muito menos daquele tamanho). Estudou engenharia.
O que ninguém em sua família, em sua cidade, sabia é que em 1966 Osvaldo tomou um ônibus e foi parar na região do baixo Araguaia, no Pará. Só anos depois, soube-se que ele fora Osvaldão, o mais importante dos três chefes que comandaram 63 militantes do Partido Comunista do Brasil, PC do B, na tentativa de criar um foco de guerrilha na região.
A notícia, quando chegou, pelos jornais, veio acompanhada de outra. Osvaldão e quase todos os guerrilheiros estavam mortos. Os depoimentos mais confiáveis dizem que um informante do Exército matou o comandante negro a tiros, num milharal. E que o corpo foi levado de helicóptero para Xambioá, também no Pará. Jamais foi achado. Osvaldão está até hoje na lista de desaparecidos.
A família, em anos recentes, perdeu seus receios. Abriu seus arquivos. O porão onde estavam fotos, papéis e objetos de Osvaldo era na verdade um vão de talvez 40 centímetros entre o solo e as tábuas do assoalho. Partes dessas tábuas podiam ser removidas. ''Quando era pequena via aquele quadrado sob a cama'', diz a sobrinha mais velha do guerrilheiro, Maria Rita Orlando Ferreira, hoje com 50 anos.
Cinco irmãos receberam indenização pela morte, no total de R$ 150 mil. A abertura dos arquivos sobre a repressão dá esperanças a Maria Rita e Maria Elisa. Se levarem aos restos do tio guerrilheiro, querem trazê-los para serem sepultados na campa da família, em Passa Quatro.


