Faltam mais negros na política brasileira

Paraná e Londrina confirmam baixa participação no legislativo em todo o País nas últimas eleições

Pedro Moraes e Guilherme Marconi/Reportagem Local
Pedro Moraes e Guilherme Marconi/Reportagem Local

Junior Santos Rosa (PSD) é um dos dois vereadores negros de Londrina: "Sei quem eu sou e o quanto foi difícil chegar até aqui"
Junior Santos Rosa (PSD) é um dos dois vereadores negros de Londrina: "Sei quem eu sou e o quanto foi difícil chegar até aqui" | Devanir Parra/CML
 


Os negros representam mais da metade da população brasileira. Nem por isso suas vozes ecoam suficientemente para garantir a devida representatividade na política nacional. Os afrodescendentes somam mais de 115 milhões de cidadãos – 55,9% do total de 207 milhões de habitantes, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).


Mas, apesar do número expressivo, o Poder Legislativo mostra que a igualdade ainda parece um ideal distante. Isso porque apenas 24,4% dos deputados federais e 28,9% dos deputados estaduais eleitos em 2018 são pretos. No Paraná, por exemplo, são apenas dois entre os 54 parlamentares na Assembleia Legislativa, o que representa 3,7%. Dos vereadores eleitos em 2016, a parcela é de 42,1%.




Em Londrina, também são apenas dois entre 19 vereadores, 10,5% do total. Já Curitiba conta com três vereadores de 38 – 7,8%. O balanço é apontado pelo Estudo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça do IBGE, divulgado nesta semana.


Os resultados de forma geral podem ser avaliados a partir de um contexto histórico, em especial no Paraná. Para o professor Hilton Costa, do curso de Ciências Sociais da UEM (Universidade Estadual de Maringá), o processo se resume ao que se chama de racismo estrutural.


“Esse é um processo que convida as pessoas a ficarem de fora porque permite que um ou dois entrem, mas deixa todos os outros de fora. É uma lógica bem-sucedida no Brasil”, avalia Costa, que também critica a ideia de que a miscigenação é um fator que diminui o preconceito racial. “Basta ver os resultados das eleições. Quantos foram os governadores negros? Os mecanismos que excluem são muitos e não há respostas simples para problemas tão complexos”, opina.


Os dados do Censo de 1854, um ano após o desmembramento do Paraná de São Paulo, apontam que a população negra era de aproximadamente 28.000, o que representava cerca de 46% da população, conforme aponta o artigo “Afinal, existiu ou não regime escravo no Paraná?”, da historiadora Cecília Maria Westphalen. Os números são considerados baixos se as dificuldades de aferição e problemas técnicos da época forem levados em conta.


“Há um discurso histórico de que o Paraná é um pedaço da Europa, por causa da chegada de imigrantes, mas o fato é que o estado tem características parecidas com o resto do País. O que acontece é que os movimentos sociais são mais organizados em uns lugares que em outros”, afirma Costa. Segundo os dados do IBGE, a população de negros no Paraná em 2018 é de 3,8 milhões, o que representa 33% do total. Em Londrina, segundo o Censo de 2010, o número é 132.096, que representa 26% da população.


Representatividade 

A Câmara Municipal de Londrina é um exemplo deste recorte: os únicos vereadores negros são Junior Santos Rosa (PSD) e Rony Alves (PTB). Ambos se reelegeram em 2016, mantendo a média em 10,5% entre as 19 cadeiras na atual legislatura. Apesar de não ser um ativista do movimento negro dentro do Legislativo, Santos Rosa diz que a presença de um negro na Câmara tem um significado grande para a população periférica. “Eu sei quem eu sou e quanto foi difícil chegar até aqui. Eu considero a presença do negro na política algo que precisa ser consolidado. O nosso trabalho é feito para atender todos os mais pobres, sejam negros, pardos ou brancos, uma coisa que já vem das nossas origens, esse olhar para o próximo.” 


O vereador justifica que o negro precisa ocupar os espaços, independente da pauta ser de direita ou esquerda. "Para alguns, há um estigma de que se você não está dentro de determinada pauta você é da elite, e não é assim. Estamos ocupando nosso espaço, entrando em lugares que nunca estivemos. Ainda são poucos negros diretores de empresas, por exemplo. Precisamos demonstrar para essa elite que é preciso ter um olhar para a periferia." 


O deputado estadual Do Carmo (PSL) é um entre os dois parlamentares que se declaram negros na AL: "A gente sente falta de representatividade"
O deputado estadual Do Carmo (PSL) é um entre os dois parlamentares que se declaram negros na AL: "A gente sente falta de representatividade" | Orlando Kissner/Alep
 

Eleito em 2018 para seu primeiro mandato na AL (Assembleia Legislativa) em 2018, o deputado estadual Paulo Rogério do Carmo, conhecido como Do Carmo (PSL), defende o aumento da representatividade da população negra na política. “Quando eu era vereador em Maringá também era o único negro da Câmara Municipal, e agora quando olho para o plenário da Assembleia, de maioria branca, a gente sente a falta de representatividade" diz.  Para o deputado, ainda é preciso um trabalho mais forte de conscientização do eleitorado. "É claro que não pode partir da gente em quem a raça negra irá votar, mas é claro que sendo único parlamentar, a gente sente falta de representatividade nas pautas da assembleia. Eu acredito que falta um trabalho maior de conscientização." Na Assembleia, o deputado e apresentador de televisão Galo também se autodeclara preto. 


Candidaturas

O porcentual de candidaturas de pessoas pretas ou pardas, no entanto, chegou a 41,8% para cargos de deputado federal, a 49,6% nas eleições para deputado estadual e a 48,7% para vereador. O estudo mostrou ainda a discrepância entre a receita das candidaturas de pessoas brancas e a de pessoas pretas ou pardas. Enquanto 9,7% das candidaturas de pessoas brancas a deputado federal tiveram receita igual ou superior a R$ 1 milhão, entre as candidaturas de pessoas pretas ou pardas, apenas 2,7% contaram com pelo menos esse valor. "As candidaturas de pretos ou pardos são menos representativas entre candidaturas com mais recursos", aponta Luanda Botelho, analista da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE. (Com Agência Estado)

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