O esforço do governo e dos aliados à caça de votos para concluir a reforma da Previdência fracassou no primeiro dia de tentativa. Às 18 horas, a lista de presença das portarias da Câmara registrava 470 deputados na Casa. No mesmo horário, a primeira votação eletrônica da reforma, depois de seis semanas paralisada, atraiu apenas 387 parlamentares ao plenário. Embora houvesse quórum na Câmara, os líderes governistas decidiram deixar para a próxima semana a votação dos polêmicos destaques. O fracasso da estratégia montada pelo governo, que envolveu até apelos emocionais do presidente Fernando Henrique Cardoso, foi atribuído pelos governistas à falta do deputado Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA) e à desmobilização causada pela morte dele e do ministro das Comunicações, Sérgio Motta.
A base aliada derrubou, mais tarde, uma emenda que pretendia reduzir em cinco anos a nova idade mínima prevista pela reforma e outra criando a previdência complementar pública. ‘‘Até quarta-feira, vamos votar todos os destaques’’, prometeu o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP).
‘‘O governo havia feito um planejamento que incluía uma mobilização desde a semana passada, e isto foi atropelado pelos acontecimentos’’, justificou o deputado Moreira Franco (PMDB-RJ). ‘‘O governo não cumpriu o que prometeu à sua base’’, rebateu o líder do PTB, Paulo Heslander (MG). ‘‘O empenho dos líderes para motivar suas bancadas não eximiu o Cutolo (Sérgio Cutolo, presidente da Caixa Econômica Federal) de fazer o que tinha de ser feito.’’ Numa reunião em sua residência Cutolo acertara com os líderes governistas liberar cerca de R$ 300 milhões de recursos do Orçamento de 1997 destinados a emendas parlamentares, que em fevereiro ainda estavam retidas.
Interlocutor de deputados que geralmente dão problemas para o governo nas votações do interesse deles, o líder petebista levou as preocupações a Fernando Henrique, na reunião de anteontem, no Palácio do Planalto. Heslander apresentou a versão dele da teoria da relatividade de Einstein, aplicada à reforma da Previdência. ‘‘Um grão de areia, presidente, é intransponível para uma formiga, e uma montanha pode não ser um grande obstáculo para um gigante’’, argumentou.
O ministro da Previdência Social, Waldeck Ornelas, instalou-se ontem no gabinete da liderança do governo no Congresso para caçar votos, com documentos à mão e o telefone do lado, na esperança de convencer deputados de que o redutor não podia ser obstáculo para votar a reforma. ‘‘Em cada quatro deputados, três estão entre os que ganham até R$ 1.500,00’’, disse o ministro, alegando que as perdas reais de salário só começam a partir desse valor.

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