Curitiba Em 28 de julho de 1966, um grupo de jovens estudantes saía às ruas de Curitiba para protestar contra a ação truculenta da polícia em Minas Gerais. Era apenas uma das intensas passeatas que se realizavam no Paraná e em outros estados contra uma política extremamente repressora que reinava na época. Naquela passeata, alguns nomes desconhecidos, mas que hoje reinam vultuosos, se faziam presentes. Os estudantes não sabiam, no entanto, que o cortejo estava sendo observado por informantes da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops) e seus mais tímidos gestos passariam a fazer parte das então temidas fichas daquela delegacia.
Faziam parte da passeata, entre os mais de 300 estudantes, nomes como o do hoje governador Roberto Requião (PMDB) e seu irmão, Eduardo Requião; o jornalista Luiz Geraldo Mazza, articulista da Folha de Londrina; e Tereza Urban, também jornalista e atualmente ambientalista fervorosa. Nem todos os estudantes que integravam a marcha, no entanto, seguiram pelo caminho político ativista. Mas em quase todos os casos, houve surpresa quando, em 1990, anos depois do final da ditadura militar, a Dops foi extinta. As pastas de seus arquivos foram então transferidas para o Arquivo Público e finalmente abertas para consultas.
O arquivo completa amanhã 148 anos. Para marcar a data, uma exposição mostra algumas preciosidades do seu acervo, entre as quais, algumas das pastas que constavam nos arquivos da Dops. Informações de passeatas da União Paranaense dos Estudantes (UPE), como a descrita acima; de encontros de jornalistas que aconteciam com frequencia e até de movimentos políticos organizados por mulheres constam nas mais de 60 mil fichas e 2,1 mil pastas temáticas que fazem parte dos arquivos.
A abertura dessas pastas, na década de 90, trouxe à tona crimes hediondos ocorridos num passado recente da história do Brasil. Confirmou, por exemplo, a morte de três pessoas (Paulo Stuart Wright, Elson Costa e Virgílio Gomes da Silva) tidas até então como desaparecidos políticos. Mostrou detalhes da vida de estudantes e ativistas políticos de reconhecimento internacional, como Che Guevara, que desafiaram a ditadura militar.
Se fazer parte desse estrondoso arquivo naquela época era motivo de perseguição, prisão e (até) tortura, hoje há quem analise de forma diferente. ''Eu tenho orgulho de ter participado de um período histórico de mudança do País'', revela a jornalista Teresa Urban. Pouco tempo depois da passeata que participou para protestar contra a ação da polícia, em 1966, ela seria presa pela primeira vez. Tinha menos de 21 anos quando o exército cercou a sua casa, acreditando que ela e outros estudantes realizariam um protesto no dia da eleição, em 3 de outubro daquele ano, e teve que ir à delegacia acompanhada da mãe. Seria a primeira, de três prisões que enfrentaria durante a ditadura.
''As reações contra essa política repressiva era muito forte entre os estudantes'', conta Tereza. ''Nós não tínhamos internet, mas a informação se propagava muito rápido e as manifestações eram intensas'', lembra. Para a jornalista, é importante que aconteça o resgate dessa história ''para que ela não se perca e, principalmente, não se repita''.
Serviço: Exposição Acervo do Arquivo Público. De 7 a 11 de abril na sede do Arquivo (Rua dos Funcionários, 1.796). Horário de visitação: das 12h30 às 19 horas. Entrada franca.

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