Exigências de Clinton irritam Alencar
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sexta-feira, 10 de outubro de 1997
Agência Estado Rio de Janeiro 
O governador do Rio, Marcello Alencar (PSDB), considerou descabidas as exigências da segurança do presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, para sua visita à cidade na quarta-feira. A assessoria da Casa Branca quer que o tráfego de trens suburbanos seja interrompido. Os seguranças também pretendem trazer armamento pesado, como bazucas e fuzis AR-15.
Alencar disse que o governo está pronto para conversar com a assessoria de Clinton sobre como preservar a integridade física do presidente e de sua comitiva. Mas não podemos aceitar imposições de trazer para cá armas pesadas, como bazuca, e parar um sistema de transporte, disse. O governador lembrou da eficiência da segurança realizada durante a visita do papa João Paulo II e na Conferência Mundial do Meio Ambiente (Eco-92), quando estiveram no Rio 114 chefes de Estado.
A ameaça do presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, de cancelar sua visita à Vila Olímpica Mangueira, por falta de segurança, irritou mangueirenses históricos e decepcionou a comunidade. Dona Zica, de 84 anos, viúva do compositor Cartola, disse que Clinton está inventando moda, ao exigir armas poderosas para entrar na Mangueira. Zica considerou a atitude do presidente americano prepotente e antipática, porque a Mangueira não é nenhum bicho-papão.
Dona Neuma, outra personalidade da escola, culpa a segurança de Clinton. Eles não querem passagem de trem, movimento nas ruas, janelas abertas, é muita coisa, disse. Para ela, Clinton parece ser um homem bom, mas dessa maneira é melhor que fique no país dele. A estudante Danúbia Barbosa dos Santos, de 12 anos, escolhida na quarta-feira para recepcionar Clinton, demonstrava frustração ontem: Será que ele vai fazer isso com a gente? O percussionista e compositor Ivo Meirelles disse que a comunidade não está nem aí para o Clinton. Segundo Meirelles, a comunidade nada ganha com a visita dessas celebridades e só estas têm lucro político. Meirelles garantiu que não estará na Mangueira se Clinton decidir visitar a Vila Olímpica.
A mangueirense Beth Carvalho estava inconformada. Esse sujeito não está fazendo a menor falta, para o Brasil e para a Mangueira, e devia lembrar que é no país dele que se matam presidentes. Beth lembrou ter levado Camilo, filho de Che Guevara, e representantes do Movimento Nacional dos Trabalhadores Sem-Terra à comunidade. Ela ficou irritada com a prepotência de Clinton, que não quer comer a nossa comida, nem usar os nossos talheres.
O coordenador da Vila Olímpica da Mangueira, Francisco de Carvalho, o Chiquinho, procurou minimizar o noticiário. Isso é balela, porque o Clinton vem mesmo, garantiu. A Vila Olímpica tem orçamento anual de R$ 2 milhões para atender 4 mil crianças. A maior investidora do projeto é a multinacional americana Xerox, que contribui anualmente com R$ 700 mil.
A assessoria de Clinton quer armamento pesado na segurança do presidente. A Polícia Militar já anunciou que, na véspera da chegada de Clinton ao Rio, colocará 200 homens no morro da Mangueira. Duzentos policiais federais - metade do efetivo envolvido na visita do papa João Paulo II - serão mobilizados no esquema de segurança do presidente norte-americano.


