Exercício de semiologia
Cada governo que entra quer deixar a sua marca digital em logotipos. Requião deu melhorada nas concepções anteriores com a arte do Bira Menezes de bandeira estilizada com cinco estrelas. Claro que já foi atingido pelo Exocet de uma piadinha do site ''Hora H'' segundo a qual as referências eram aos cinco irmãos no governo. Só falta repetir aquela outra de anos atrás de que se trata de um governo mais de ''traz parentes'' do que transparente.
Extraído o exagero da perfídia, dá para lembrar que já anteriormente Requião usou a bandeira estilizada, mas sem o nível estético da atual, para marcar o seu governo, acrescentando o discursivo ''Paraná, o Brasil que deu certo''. Curioso é que esses signos governamentais são mais divulgados, obviamente, do que os oficiais do brazão por sinal restaurados, uma vez que no governo Álvaro Dias eles foram modificados por uma comissão de especialistas e a instância superior considerou irregular a sua adoção. Especialista em heráldica, o professor Ernani Straub insiste nas mudanças propostas e voltou a publicar ensaio sobre o tema no Instituto Histórico e Geográfico.
De Ney Braga para cá, tempo da grande arrancada desenvolvimentista, tivemos logomarcas diferenciadas, a primeira de um figurativismo primário com aquela sequência de bonecos de mãos dadas, feitas à tesoura, acompanhado do slogan ''Somos todos uma só força'' que praticamente decalcava o de São Paulo que era uma colmeia com suas abelhas e que no governo Carvalho Pinto deu favos de mel à mais importante unidade da Federação. Com Pimentel houve sensível melhora na concepção com o formato esférico, a bola verde, que acabou incorporada à sua rede de jornais e tevê. Na gestão Parigot de Souza, que estava minado pelo câncer, o ''teaser'' era o seguinte ''Paraná é um dever. Vamos cumprí-lo.'' Alvaro Dias que apostou nas estradas e usinas fincou a casinha de concreto que era a logomarca das realizações. E com Lerner, como já ocorrera na Prefeitura da Capital, a arte ficou por conta do gênio Manoel Coelho, doublê de arquiteto e ''designer'', um dos melhores do país com as folhinhas da ecologia e a bandeira estilizada num grafismo delicado e sem afetação.
IDENTIDADE Uma de nossas carências está na falta de identidade cultural, repito-o à exaustão. O governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, foi propor à Rede Globo que alterasse a edição dos capítulos da série ''A Casa das Sete Mulheres'', que trata da saga dos Farrapos, incluindo outras atrações que não apenas a um dos maiores canyons do mundo, o dos Aparados da Serra. E o fez consciente do quanto isso representa para a auto-estima de um povo com tão forte identidade.
Ciente dessa realidade psico-cultural, bioatávica, a RBS neutraliza parte do poder hipertrofiado da Globo, decantando valores regionais. E faz isso com toda a rede do sistema nas praças em que atua. Temos feito muito pouco nessa direção e com o péssimo hábito de falar para dentro, autarquicamente, e sem conexões externas. Aí os gaúchos levam a vantagem do seu exasperado empuxe migratório que os faz presentes em todo o Brasil e com seus CTGs.
Esse fator pesa na questão da presença nacional em termos políticos. Dá para percebê-lo no ministério de Lula, no qual se vai além do paulistério, que teve predomínio em FHC, ao gauchério.
É um desafio a todos, respondido pelo romancista Domingos Pelegrini com obras de referência sobre o setentrião, pelo cineasta Sílvio Back com ''Guerra dos Pelados'' e a sua visão do Contestado. Só nesse evento, em que perdemos a guerra jurídico-política, levamos um baile em documentação e ficção da parte dos catarinenses. Tenho insistido no tema em discussões na Academia Paranaense de Letras e vejo aí a causa mais remota das nossas perdas políticas.
UM EXEMPLO A melhor cabeça do Paraná é Belmiro Valverde. Seu livro ''O Brasil não é para amadores'' acaba de ganhar a sua versão em inglês na Universidade de Stanford, lugar em que obteve seu PHD em administração. É um exemplo dentre tantos outros como os proporcionados por nossa massa cinzenta e que precisam de estímulo. Tenho sugerido que se faça um cadastro desse QI, tanto dos que aqui permanecem como dos que se encontram no exterior ou em outros estados.





