O ex-vereador em Apucarana, José Godoy Viana, 60 anos, não esquece aquele início de tarde quentíssimo de 12 de novembro de 1975. Estava em frente ao prédio da Câmara Municipal comendo uma cocada na companhia de um amigo quando avistou uma viatura do serviço secreto do Exército. No carro estava um colega de escola acompanhado do então capitão do 30º Batalhão de Infantaria Motorizada (30º BIM), Ismar Moura Romariz. ''Você está preso, Godoy'', teria dito o capitão. Até o final da noite daquele dia, ele diz que sofreu humilhações, foi espancado e levou choques elétricos numa sala do quartel. Tudo porque fazia oposição ao então prefeito Luiz Antônio Biachi.
Godoy conta que a viatura era dirigida por um amigo seu, o cabo Jorge Kawai. Logo ao estacionar, o capitão aproximou-se e deu voz de prisão. ''Pensei até que estivessem de brincadeira. Estava comendo uma cocada e ofereci ao capitão. Ele recusou e me disse que estava preso. Tentei sair e ele disse que se saísse me matava.'' Godoy diz que foi algemado e colocaram um ''óculos'' em seu rosto que tampava completamente a visão. O carro rodou pela cidade e teria parado em uma pedreira, onde o grupo permaneceu por várias horas. Ali ele fou surrado com pauladas, socos, pontapés e ouviu todo tipo de insultos.
Já era noite quando foi levado para o quartel do Exército, onde teria ficado numa sala do serviço secreto (S2). ''O Romariz falou para um soldado: vai buscar aquilo (máquina de choque). Primeiro enfiaram um fio na algema e outro num pé da minha sandália. Aquilo durou horas. Eles faziam perguntas que eu não tinha como responder'', recorda.
Encerrado o ''interrogatório'', ele afirma que teve que assinar papéis em branco e outros que ele não pôde ler e que incriminavam o ex-prefeito Valmor Giavarina. Já noite alta, foi liberado numa área escura na saída da cidade. No dia seguinte, ouviu amigos e decidiu denunciar a tortura sofrida e processar o capitão Romariz. A agressão foi notícia em vários jornais de circulação nacional, inclusive no ''Leia Mais-Um'' (periódico sucessor do Pasquim), e sua situação só piorou.
Foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional e passou a ser vigiado constantemente. Mudou-se para Santos e só retornou a Apucarana no início da década de 80. Neste tempo, tinha que comparecer regularmente perante autoridades militares em Curitiba. Teve que se desfazer de seu patrimônio (uma propriedade próxima ao centro de Apucarana) para cumprir tais exigências.
Godoy entrou com um pedido de indenização junto à Secretaria Especial de Corregedoria e Ouvidoria Geral do Governo do Estado. Em novembro de 2004 recebeu a resposta: ''Concluímos pelo indeferimento visto que tal solicitação não se enquadra nos termos da lei''. Hoje, Godoy é funcionário do Instituto Médico Legal (IML) de Apucarana. Além da mulher Hilda e da filha Mararúbia, suas outras paixões são as coleções de inúmeros objetos e documentos guardados num quarto nos fundos de casa. (L.A.)

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