Gerson Camarotti Agência Estado
O ex-senador José Eduardo Andrade Vieira (PR), que até 1997 era dono do Banco Bamerindus, ameaça revelar amanhã à tarde, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bancos no Senado, bastidores sobre o Proer - programa de socorro às instituições financeiras feito no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. ‘‘Se o governo está com medo do meu depoimento, é para ter mesmo; afinal, não tenho nada a perder’’, avisa ele.
Sem falar sobre o assunto desde que deixou o Senado no início do ano, Vieira promete quebrar o silêncio. Convidado oficialmente para colaborar com a CPI, ele prefere fazer segredo do teor do depoimento. Adianta apenas que abordará e questionará os reais interesses da equipe econômica na transferência do Bamerindus para o HSBC e as razões pelas quais o governo adotou certas posturas em relação ao banco paranaense, ao contrário do que ocorreu na venda de outras instituições financeiras.
Aliado da candidatura de Fernando Henrique em 1994, Vieira também foi um dos principais coodenadores da campanha. O Planalto teme que o ex-banqueiro não se limite apenas ao assunto específico sobre o Proer e passe a revelar também possíveis histórias sobre os bastidores da campanha presidencial. Na ocasião, a proximidade com Fernando Henrique o levou a ocupar o cargo de ministro da Agricultura. Há um ano, numa entrevista ao jornal ‘Correio Braziliense’, o ex-senador insinuou a existência de ‘caixa dois’ na campanha. ‘‘O que eu sei é que existem muitas pessoas que oferecem dinheiro, mas não querem recibo’’, disse Vieira na época. A convocação do ex-banqueiro irritou assessores próximos de Fernando Henrique que esperavam que a CPI iniciasse um período de calmaria. O governo acha que a presença de Vieira em Brasília é também uma forma de pressão dos aliados, principalmente do PMDB, no momento em que o presidente enfrenta escândalos, além de estar no pior momento de popularidade.
Mas a intenção do ex-banqueiro é concentrar o depoimento sobre o Proer e os bastidores que levaram à venda do Bamerindus.
‘‘Em 1995, o Bamerindus deu US$ 100 milhões em lucro, mas, no ano seguinte, com a boataria provocada pelo próprio Banco Central (BC), o meu banco foi perdendo clientes e passou a gerar um enorme prejuízo’’, afirma Vieira. ‘‘Os diretores do BC alegavam que os boatos eram de pessoas de terceiro escalão e que por isso não podiam fazer nada; mas, como eles negociaram com o HSBC a compra do Bamerindus durante um ano e nunca saiu notícia alguma ou muito menos boato sobre o assunto?’’, questiona o ex-senador.
Para ele, a operação Bamerindus foi um ‘negócio da China’ para o banco inglês HSBC (Hong Kong and Shangai Baking Corporation). O BC deverá receber, num prazo de sete anos, um total de US$ 381,6 milhões. Em troca, o HSBC levou 1.241 agências e ativos de mais de R$ 10 bilhões. O BC também concedeu outra vantagem, limpando a parte ‘podre’ do banco paranaense com recursos do Proer, no valor de R$ 2,9 bilhões. ‘‘O Excel foi vendido por US$ 500 milhões, o Noroeste também foi US$ 500 milhões e o Garantia chegou a US$ 1 bilhão’’, comenta Vieira, lembrando que, apesar dos valores, todos esses bancos eram menores do que o dele. ‘‘Que negócio foi esse com o Bamerindus? Foi é negociata’’, afirma o ex-senador.

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