Marcelo AlmeidaAto de féGimenez: esquerda mudou, trabalhadores não têm representação, mas vitória do socialismo é ‘‘inevitável’’O pesadelo da perseguição, da clandestinidade forçada, da prisão e da tortura, enredos comuns nos idos ‘‘anos de chumbo’’, deixaram marcas insuperáveis, mas não acabaram com os sonhos de quem sentiu aquele período. Os ideais socialistas defendidos durante o período da repressão continuam sendo a meta de alguns dos 19 ex-presos políticos do Paraná que tiveram no início da semana, em Curitiba, direito às primeiras indenizações reconhecidas pelo Poder Executivo, depois de sancionada a lei do deputado estadual Beto Richa (PTB). O advogado Berek Kriger e o vendedor de livros Diogo Gimenez, por exemplo, acreditam que o Brasil tem jeito e que a solução dos problemas está na mesma fórmula política, tachada de subversiva, que defenderam durante o regime de exceção: a busca da igualdade social.
‘‘Dizer que o socialismo acabou com a queda do muro de Berlim é uma grande bobagem. O anseio de liberdade, igualdade e de um Estado de Direito é um desejo que nunca vai se esgotar. O único crime que cometemos foi o de termos pensado diferente dos detentores do poder’’, discursa Kriger, 69 anos e advogado em Itapoá (SC) há quatro anos. Vítima do sistema e preso quatro vezes pelos militares entre 64 e 75, ele critica a condução do governo Fernando Henrique Cardoso, voltado, na sua avaliação, para ‘‘políticas neoliberais’’. ‘‘Esse processo acabou na Inglaterra e nós aqui ainda batemos nessa tecla. Tanta sede pela modernização para quê?, questiona.
Para Diogo Gimenez, 70 anos e ex-dirigente do Partido Comunista, a esquerda mudou, não é mais aquela que atuou durante o regime militar. ‘‘Hoje não há nenhum partido político que represente os trabalhadores. E nem isso me tira a certeza de que a vitória do socialismo é inevitável. O capitalismo já provou que não traz soluções’’, argumenta o ex-preso político. Ele conta que a repressão que sofreu durante o regime lhe deu mais força para acreditar que o sonho por uma sociedade mais justa não acabou. ‘‘Fomos vítimas de um processo arbitrário que tentou nos podar. O que o regime queria? Queria nos envolver, para justificar medidas absurdas que estavam sendo tomadas contra a população’’, assinala.
O jornalista Milton Ivan Heller, 67 anos, diz que o movimento militar de 64 serviu para evidenciar a fragilidade da esquerda brasileira. ‘‘Não estávamos preparados para o que vinha pela frente, o que acabou provocando uma fragmentação interna que se reflete até os nossos dias’’, assinala. Milton Ivan não tem dúvida de que esta divisão prejudica. Ele não integra a lista dos 236 ex-presos políticos que protocolaram pedidos de indenização junto à Comissão Especial de Ex-Presos Políticos formada pelo governo estadual.
Repórter de política do extinto ‘‘Última Hora’’, ele lembra que demorou anos para perder o rótulo de subversivo. ‘‘Em agosto de 63 fui eleito membro do Conselho Fiscal do Sindicato dos Jornalistas e tive o mandato cassado. Quem pensava diferente era colocado como suspeito’’, observa.

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