O jornalista e escritor Ildeu Manso Veira, 71 anos, delegado da Associação Brasileira dos Anistiados Políticos (Abap) no Paraná, morreu ontem de madrugada em Maringá. Ele tinha câncer no estômago e estava internado há 10 dias no Hospital Santa Rita. Ildeu foi enterrado ontem no final da tarde no cemitério de Mandaguari, onde morava com a família. Polêmico, ele escreveu dois livros: um deles narrando os horrores praticados nos bastidores das prisões promovidas pelo regime militar, e outro, contando a colonização do Norte e do Noroeste do Paraná.
‘‘Memórias torturadas (e alegres) de um preso político’’, de 1998, narra com precisão de nomes, datas e fatos tudo que acontecia na prisão que abrigava os presos políticos, em Curitiba. Dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Ildeu foi preso em 1975. Durante três anos ele foi submetido a torturas por militares, deixando a prisão com sérios problemas de saúde. Mas não era a parte física que o incomodava. ‘‘O mais difícil de recuperar é a sequela psicológica’’, assegurou à Folha durante o lançamento do seu livro.
Das marcas que guardava durante os interrogatórios da repressão, a que mais o acompanhou foram os golpes chamados ‘‘telefone’’, que romperam com os tímpanos de seu ouvido direito. Depois de um longo período de tratamento, ele só conseguiu recuperar apenas 20% da audição daquele ouvido.
Ildeu nunca conseguiu se libertar totalmente dos tempos da prisão. Tanto que a intenção dele era escrever mais um livro sobre a repressão. O nome, ele já havia escolhido: ‘‘Sequelas da tortura’’. Como o nome sugere, todo o conteúdo seria extraído do diário de prisão.
O segundo livro de Ildeu, ‘‘Jacus e Picaretas’’, narrava a colonização do Norte e Noroeste do Paraná, denunciando a ação dos corretores de terras sobre os colonos que chegavam para desbravar a mata e iniciar o plantio de café. O livro traz também fatos e nomes da época, mostrando o contraste entre a vida levada pelos exploradores e os explorados. Sempre com um tempero político. Ele é autor também de artigos publicados em vários jornais, inclusive na Folha. A maior parte deles mostrando a situação dos anistiados.
A defesa incondicional dos presos políticos era a principal causa dele. A partir da Lei da Anistia, em 1979, ele começou a fazer parte de um movimento de abrangência nacional para que fosse possível acelerar a volta dos companheiros exilados. Tempos depois, com a formação da Associação Brasileira dos Anistiados Políticos, passou a defender os direitos dos anistiados. A luta de Ildeu rendeu ao Paraná o reconhecimento como primeiro estado brasileiro a garantir os direitos dos ex-presos políticos, através da aprovação da Lei Beto Richa, em 1995, que previa a indenização de 243 ex-presos políticos. No ano passado, Ildeu e outros perseguidos pelo regime militar começaram a receber as indenizações. Ele só não resistiu para ver a União retomar o pagamento de pensões dos anistiados.

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