Ex-parlamentares não deixam Congresso
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sábado, 22 de maio de 1999
Ascânio Seleme Agência Globo 
Um dia eles foram poderosos. Exerceram mandatos e ajudaram a decidir os destinos do País. Alguns frequentaram o Congresso por duas ou três décadas. Outros intercalaram seus mandatos com cargos executivos nos seus Estados ou no governo federal. Mas muitos não conseguiram se livrar da vida parlamentar mesmo depois de perderem o mandato. Hoje, percorrem os corredores da Câmara e do Senado, frequentam o cafezinho dos parlamentares, ficam à vontade nos plenários. Mas não têm mais voz ou voto no Congresso. Poucos mantêm prestígio na Casa, mas os ex-parlamentares são bem tratados por funcionários e pelas direções da Câmara e do Senado.
No Senado, circulam como se ainda fossem senadores. Na Câmara, os privilégios de ex-deputados constam do regimento interno. São homens e mulheres como o ex-senador Jorge Kalume (AC) e a ex-deputada Moema Santiago (CE) que, anos depois de exercerem seu último mandato eletivo, não conseguem voltar para os seus Estados e permanecem circulando no Congresso. Alguns ainda fazem política, participando de reuniões de bancadas e dando palpite sobre atribuições das lideranças partidárias.
Afonso Camargo, hoje deputado: visitas frequentes ao plenário do SenadoKalume, um dos mais antigos ex-senadores do País, é um homem simpático e simples. Aposentado desde 86, continua indo ao Senado com a frequência dos tempos de mandato: Quando comecei na vida pública nos anos 50, larguei minhas empresas e mergulhei nessa atividade. É difícil deixar para trás uma vida inteira de dedicação, diz ele. Como Kalume, o ex-senador Áureo Melo (AL), integrante da tropa de choque do ex-presidente Fernando Collor, não consegue ir embora. Tentou reviver a atividade parlamentar candidatando-se a uma vaga de deputado distrital (Legislativo do Distrito Federal), mas foi derrotado.
Há ainda outros como Ronan Tito, ex-senador por Minas, que permanecem no Congresso fazendo consultoria ou lobby. Tito, que há oito anos perdeu sua vaga no Senado, continua passando pelo menos três dias da semana em Brasília. Um bom ex-parlamentar tem mais credibilidade e autoridade no Congresso do que um excelente ex-engenheiro, diz um lobista de Brasília.
A ex-deputada Rose de Freitas (ES), além de não deixar o Congresso, exibe outra arma no esforço de manter o prestígio: sua amizade com o presidente FHC. Ela gosta de ostentar esta condição, às vezes falando ao celular com o presidente apenas para mostrar que mantém sua força.
Alguns ex-parlamentares são respeitados, como os ex-deputados José Lins (CE) e Hélio Duque (PR). Mas outros são tratados com desconfiança, como o ex-senador João França (RR), que foi denunciado por tentar subornar um ex-colega para obter um voto favorável aos juízes classistas no Senado. O ex-senador e atual deputado Afonso Camargo (PTB-PR) frequenta mais o plenário do Senado do que o da Câmara. A ex-deputada Maria da Conceição Tavares, que passou duas legislaturas reclamando da vida parlamentar e do isolamento de Brasília, não passa mais de três semanas sem ir à Câmara. Ela participa das reuniões do PT e dá sugestões.
Muitos ex-deputados e ex-senadores permanecem no Congresso, ocupando postos de assessoria e direção. Outros continuam em Brasília, em cargos do Executivo. Mas há os que perderam seus mandatos e sumiram. Alguns um dia foram estrelas do Parlamento mas estão longe de Brasília hoje. Nessa categoria estão os ex-deputados Chico Pinto (BA), Airton Soares (SP), Marcelo Cerqueira (RJ), José Eudes (SP) e Ibsen Pinheiro (RS).


