Ex-doleiro pode ser autor de chantagem
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quinta-feira, 19 de novembro de 1998
Carmem Murara 
O homem que está sendo apontado como autor da tentativa de chantagem da Operação Caymam - que envolve a alta cúpula do PSDB e o presidente Fernando Henrique Cardoso - pode ser o doleiro Jamil Degan, que morou e trabalhou em Curitiba na década de 60. A investigação de seu nome começou esta semana, a partir da denúncia de um empresário curitibano, que na época trabalhava com corretores na Bolsa de Valores do Paraná. Sem querer se identificar, ele disse que descobriu o fio da meada ao comparar a assinatura de um dos documentos do caso, publicado na revista Veja com a assinatura de uma antiga promissória guardada por um amigo que foi credor de Degan. Ele comparou ainda a semelhança do nome usado pelo doleiro nos EUA.
Em Nova York, onde mora desde 1971, Jamil Degan é conhecido como James Began. Ele é acusado de ter tentado negociar a venda de documentos que poderiam ser utilizados para chantagear o governo federal no caso Caymam. Os documentos apontariam uma sociedade entre o presidente da República e os ministros José Serra (Saúde), Sérgio Motta, já falecido (ex-Comunicações) e o governador de São Paulo, Mário Covas. Pela acusação, eles teriam uma empresa no paraíso fiscal, para onde já teriam enviado US$ 368 milhões.
Das investigações feitas até agora, foi descoberto que um homem se encontrou três semanas antes da eleição com o pastor evangélico Caio Fábio para oferecer os documentos que comprovariam o esquema. Esta pessoa foi identificada pelo pastor como sendo um britânico que falava bom português. Ele exigia US$ 4 milhões e depois US$ 1,5 milhão para entregar os documentos.
O empresário, que conversou ontem por telefone com a Folha e que prestou também informações ao jornal O Globo, disse que o britânico, na verdade, seria um brasileiro que morou em Curitiba.Na época em que ele morou aqui, todo mundo o conhecia como sendo um homem como um ar britânico, disse o empresário.
Na edição desta quarta-feira, O Globo também disse que Jamil Degan seria a pessoa que estaria por trás do caso. O jornal conseguiu identificá-lo por conhecidos que tiveram contato com o doleiro nos últimos meses, em Nova York, onde ele tinha um restaurante na Avenida 46, região conhecida como Little Brazil.
A história de Jamil Degan começou em Curitiba em 1961, quando ele deixou a gerência do Citibank em São Paulo para trabalhar para o corretor Ricardo Machado Lima, dono de uma corretora que operava na Bolsa de Valores, na época. Após alguns anos na cidade, ele montou a Agência de Turismo Jade, que até hoje funciona na esquina das Ruas XV com Barão do Rio Branco. Ele ficou com a empresa até o início da década de 70 e depois se desfez do negócio. Esse Jamil não é mais o dono da Jade há 33 anos, informou, ontem, um dos funcionários da agência, ao dizer também que a empresa pertence hoje à família do empresário Paulo Donioni.
Jamil Degan teria ido embora para os Estados Unidos após aplicar na cidade um golpe de US$ 1 milhão. Até hoje, ninguém conseguiu receber a dívida. Ele teria rompido todas as relações com o Brasil para se dedicar a negócios nos EUA. Da lista telefônica de Curitiba constam duas pessoas com o sobrenome Degan, mas ao atenderem ao telefone disseram desconhecê-lo.
Falsificação Em Brasília, o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, disse ontem que os papéis sobre a suposta empresa do presidente FHC no Caribe não podem ser chamados de documentos. Segundo ele, os papéis são falsificados. Na opinião de Brindeiro, o inquérito aberto pela Polícia Federal deve ter como objetivo identificar o suposto falsificador dos papéis. Será que alguém, a esta altura, tem dúvida sobre a falsidade dos papéis?, questionou.
O procurador afirmou que não pode imaginar que alguém de boa fé faça uma série de falsificações para provocar uma investigação. Então é um criminoso de boa fé?, perguntou. Precisava cometer tantos crimes para provocar investigação?.
Brindeiro informou que nos próximos dias deverá nomear provavelmente o procurador da República no Distrito Federal Luiz Augusto Lima para acompanhar as investigações da PF sobre os papéis da suposta empresa. Sobre o inquérito a respeito da escuta no telefone do BNDES, Brindeiro disse que deve nomear os procuradores cariocas Silvana Batini e Daniel Sarmento para acompanhar as investigações. Segundo o procurador, Sarmento está disposto a abrir um inquérito civil público para apurar até que ponto a Telerj tem controle para evitar escutas telefônicas no Rio de Janeiro. (Colaborou Mariângela Gallucci/Agência Estado).


