Ex-assessora diz que PT gastou R$ 6,5 milhões
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quinta-feira, 28 de julho de 2005
Janaina Garcia<br> Reportagem Local 
A ex-assessora financeira da campanha do prefeito Nedson Micheleti (PT), Soraia Garcia, 31, falou ontem à noite na casa que exibe logo à frente a placa de ''vende-se'', na Zona Sul de Londrina. Entre um cigarro e outro, afirmou que o caixa 2 de pelo menos R$ 6,5 milhões existiu e que a denúncia feita ao Ministério Público (MP), esta semana, tem relação com ameaças recebidas recentemente, e de um cargo supostamente oferecido, mas não concedido na administração municipal ''nem que fosse no almoxarifado da Sercomtel, eu queria, preciso do meu cantinho'', admitiu.
Natural de Rolândia (25 km a oeste de Londrina) e com curso superior de Gestão Empresarial não concluído, Soraia foi taxativa em dar nomes aos operadores do dinheiro não declarado à Justiça Federal ao mesmo tempo, afirmou que a única prova que possui é a própria memória, mas ressalvou que a agenda de pagamentos foi entregue à promotoria. ''Sei o CNPJ da campanha, sei todos os pontos onde eram entregues o dinheiro, inclusive no 'QG' nosso, ali no 17º andar do (edifício) Twin Towers'', afirmou, referindo-se ao escritório que fica no andar de cima da Companhia de Desenvolvimento de Londrina (Codel).
De acordo com a assessora, o atual secretário municipal de Gestão Pública, Jacks Dias, então chefe de gabinete de Nedson, ''é o organizador do esquema. O Augusto (Ermétio Dias Junior, diretor administrativo-finaceiro na Companhia Municiapl de Trânsito e Urbanização, CMTU) é o pau-mandado''. Ela ainda citou a si própria como integrante, uma vez que preenchia cheques de compras feitas ''por fora'' e os daria a Dias para assinar. Somente de uma rede de supermercados, por exemplo, a ''ajuda'' não oficializada pode ter passado de R$ 1 milhão. Outro método contado por Soraia era o que consistia no uso do CPF de secretários e membros do comitê, como Moreno, Dias e Dias Junior para a efetuação de compras de ''luxos de campanha'' a fogões industriais.
Outra frente de sonegação, segundo Soraia, era o pagamento de verba complementar a participantes da campanha eleitoral, e até pagamento a quem era anunciado como voluntário. Nesses casos, incluiriam-se desde aproximadamente 80 candidatos a vereador da coligação petista (''cerca de R$ 800 cada um''), líderes de partidos aliados da reeleição e até cabos eleitorais. ''Diziam que eles eram voluntários, mas, na verdade, às vésperas do segundo turno, o Augusto reuniu 2 mil desses cabos de rua e distribuiu a cada um R$ 100'', relatou. Novamente ''puxando pela memória'', afirmou que ''eu ligava a cada um que recebia, e dizia: 'Vem aqui, que sua encomenda tá aqui'''. Ela garante ter recebido o salário de R$ 1,2 mil também como caixa 2.
Parte da verba não contabilizada, segundo Soraia, aparece na prestação de contas da campanha petista como doações feitas por pessoas que hoje ocupam cargos comissionados na prefeitura.
Entre os exemplos de verba complementar, Soraia citou jornalistas que, durante o processo, teriam sido pagos com R$ 2.380 e recebido, por fora, R$ 4 mil. Ou de outros, que, participantes da atual gestão de Nedson, teriam sido pagos com R$ 3.780 e ''turbinados'' com R$ 5 mil, até R$ 7 mil. ''Não sei de onde vinha o dinheiro, sei é que ele chegava em sacolas de papelão, trazidas pelo Augusto. Quando deputado petista chegava a Londrina, então, não precisava contar até quatro, até o fim do dia, porque a nossa 'seca' acabava'', disse.
Pelas declarações da assessora, cerca de 60% dos R$ 6,5 milhões do suposto caixa 2 teriam pago, em sua maioria, cabos eleitorais, presidentes de partido e candidatos a vereador. Os restantes 40% teria quitado uma cozinheira para os coordenadores de campanha, além de quotas de combustível declaradas como doações.
Como chegou a essas pessoas? ''Minha mãe é conhecida do Augusto há mais de 20 anos. Falou ano passado para ele que eu tinha experiência como licitadora, entrei para ajudar, mas acabei operando tudo a pedido deles.'' Como comprovar isso em juízo? ''Sei que eles rasgaram e queimaram as provas, mas não me importo em fazer uma acareação com Jacks, Augusto e Chico (Moreno), menos com o Nedson, pois o vi apenas três vezes'', finalizou. Soraia disse que aceitaria ter o sigilo telefônico quebrado, se necessário. Ela é filiada ao PT londrinense desde 2002.


