A ex-assessora financeira da campanha de reeleição do prefeito Nedson Micheleti (PT), Soraya Garcia, citou ontem no depoimento de oito horas prestado à Polícia Federal em que teria detalhado o suposto esquema de caixa 2 na campanha o chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o londrinense Gilberto Carvalho.
Conforme a Folha apurou, Soraya teria relatado à PF que quando faltavam recursos na campanha, o presidente do PT de Londrina, Jacks Dias, e o tesoureiro do partido, Francisco Moreno, diziam para ''telefonar'' para Carvalho. No entanto, na entrevista coletiva Soraya se negou a fazer qualquer ilação sobre a origem dos recursos gastos na campanha, que segundo ela, totalizaram R$ 6,5 milhões e não os R$ 1,3 milhão declarados pelos petistas à Justiça Eleitoral. ''Eu não sei de onde ele (dinheiro) vinha, só sei que ele chegava'', afirmou. De acordo com a ex-assessora, o dinheiro era entregue por Dias e o então diretor da Cohab, Augusto Ermétio Dias Júnior. ''Duas vezes fomos (ela e Dias Júnior) com o Jacks buscar dinheiro. Uma vez, em setembro, e outra no primeiro turno, um dia antes, no sábado, nós quitamos os pagamentos. A gente ficava rodando, rodando até chegar a um lugar onde o Jacks se sentia seguro para passar as sacolas (com dinheiro) que já estavam no carro dele'', relatou.
No depoimento prestado ontem, Soraya teria complementado as declarações concedidas à Justiça Federal no dia 27. ''Na semana passada foi a geral, hoje a gente detalhou tudo aquilo que eu sabia. São CPFs, nomes, datas, locais, mais nada'', disse a ex-assessora que deverá ser ouvida novamente no inquérito policial. Ontem ela entregou aos delegados Sandro Roberto Viana dos Santos e Kandy Takahashi, que preside o inquérito, notas fiscais e canhotos de cheques que guardava desde o término da campanha. Outros documentos foram entregues ao Ministério Público Eleitoral (MP) e anexados ao inquérito.
Ela também admitiu que antes de fazer a denúncia ao MP, teria procurado o deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB), candidato derrotado a prefeito. ''Melhor para saber dentro da PIC (Promotoria de Investigações Criminais) quem não é a favor do PT. Só pra isso (que procurou), não levei vantagem nenhuma. Só falei o que eu sabia do caixa 2 e ele entrou em contato com a promotora Solange (Vicentin), falou que estava me mandando e eu peguei o motoboy e fui embora'', afirmou.
Conforme Soraya, além do caixa paralelo, parte do caixa oficial da campanha teria sido ''esquentado'' com a anuência de integrantes da administração municipal. ''(Dos R$ 1,1 milhão arrecadado oficialmente pelo PT) R$ 970 mil foram mandados, depositados em cheques, o restante foi esquentamento de dinheiro. As empresas que doaram, doaram por dentro. Quem não doou por dentro, quem participou desse esquema foram as pessoas que emprestaram o nome. Emprestaram o nome para depositar, para a gente esquentar dinheiro porque tinha cheque caindo e não entrava dinheiro no caixa oficial mas entrava no caixa 2'', disse. ''Jacks Dias, Francisco Moreno, Augusto, Wilson Sella, Major Adalberto (Pereira), Alvaro Grotti, eles emprestaram os CPFs para que a gente depositasse o dinheiro em conta. A gente que depositava depois pegava o número do CPF e os dados deles e pegava a assinatura dos recibos. Eu estive na secretaria pegando de vários'', afirmou. ''Eu sou a faxineira. Estou fazendo a faxina do lixo pra fora. O que eles fizeram é uma coisa que envolve muita lama, então estou lavando a lama'', complementou, fazendo alusão às primeiras declarações de Jacks Dias, que afirmou que Soraya limpava o chão e servia cafezinho no comitê. Moreno negou que houvesse e que tivesse participado desse esquema. ''Nunca fiz nada disso. Que eu saiba, nos comitês nem tinha isso, não tinha caixa 2 na verdade'', disse. Os demais citados por Soraya não foram localizados.
Augusto Ermétio Dias Júniro deve ser o próximo interrogado pela PF. ''O interessante agora é analisar o depoimento da Soraya e tentar ouvir em especial o Augusto, principal nome citado no depoimento. Vamos aguardar a análise da documentação e saber se vamos ter alguns procedimentos de quebra de sigilo bancário, fiscal, telefônico ou possivelmente mandados de busca'', disse o delegado Sandro dos Santos. Segundo ele, Soraya citou o nome de mais de 50 pessoas. ''A Soraya citou mais de 50 nomes, creio que no mínimo dez seria importante esse procedimento de quebra de sigilo'', contabilizou.

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