Arquivo FolhaPassado revistoO ex-presidente Getúlio Vargas, o ‘pai’ do Estado NovoEm fevereiro de 1937, nove meses antes de Getúlio Vargas instituir a ditadura do Estado Novo, o capitão do Exército Affonso Henrique de Miranda partiu secretamente dos Estados Unidos, onde foi manter contato com o FBI, para uma suposta viagem a Paris. Na verdade, o destino do capitão Miranda fora estabelecido pelo poderoso chefe da Polícia do Distrito Federal, Filinto Muller. Miranda estava destacado para participar de um congresso clandestino de polícias políticas organizado pela Gestapo, a polícia política de Hitler.
Durante cinco dias, em Berlim, com a presença de Heinrich Himmler, chefe da SS (exército paralelo do 3º Reich), as polícias políticas de 14 países - entre os quais o Brasil - discutiram o combate às ideologias contrárias ao Estado, notadamente o comunismo e o anarquismo. A realização do encontro clandestino foi descoberta recentemente pela pesquisadora Elizabeth Cancelli, da Universidade de Brasília, e é uma das principais evidências da ligação do Estado Novo com a Alemanha nazista.
Elizabeth estava pesquisando no Arquivo Histórico Diplomático da Itália, quando encontrou referências ao capitão Miranda, que, antes de viajar para Berlim, esteve em Nova Iorque, em contato com agentes do FBI (o burô federal de investigação dos Estados Unidos). A pesquisadora escreveu o artigo ‘‘De uma sociedade policiada a um estado policial: o circuito de informações das polícias nos anos 30’’ que deverá ser publicado no começo do ano pela Fundação Getúlio Vargas, em livro sobre os 60 anos do Estado Novo.
Investigações Também por acaso, em Nova York, Elizabeth descobriu documentos com as investigações do FBI sobre o casal Arthur e Elise Ewert. Arthur Ewert, agente de Moscou, saiu dos EUA, com passaporte americano, passou pelo Uruguai e veio ao Brasil, com o nome falso de Harry Berger, para, junto com Luis Carlos Prestes, organizar a Intentona Comunista de 1935. Filinto Muller e seus oficiais prediletos, entre eles o capitão Miranda, participaram do desmantelamento do levante. Arthur foi preso e, após sessões de tortura, ficou louco. Elise, como Olga Benário Prestes, era judia. Ambas foram extraditadas para a Alemanha, onde morreram em campos de concentração.
Condecorações dadas as autoridades brasileiras pelo governo fascista de Benito Mussolini, da Itália, são evidências da aproximação do governo Vargas com o Eixo. Segundo a pesquisadora, Muller, e o ministro da Educação e da Saúde, Gustavo Capanema, foram laureados, em outubro de 1941, com a Croce corona d’Italia, assim como Francisco Campos, maior ideólogo do Estado Novo, e Frederico Bastos, do Tribunal de Segurança Nacional. Ernani Reis e Jurandir Lodi, segundo a pesquisa, receberam a comenda SS Maurízio Lazzaro. A Godofredo da Silva Telles, presidente do Departamento Administrativo do Estado, foi concedida a comenda Ordini Corona d’Italia.

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