POLÊMICA NA ACADEMIA -

Evento tido como revisionista sobre o golpe militar gera tumulto na UEL


Luis Fernando Wiltemburg - Grupo Folha
Luis Fernando Wiltemburg - Grupo Folha

Evento tido como revisionista sobre o golpe militar gera tumulto na UEL
Reprodução/WhatsApp Grupo Folha


Um evento para a exibição de documentário tido como “revisionista” do início do governo militar no Brasil dentro da Universidade Estadual de Londrina (UEL), na quarta-feira (3), provocou reação do movimento estudantil e chegou a levar a Polícia Militar até o campus universitário.


No fim da exibição, os espectadores permaneceram dentro da sala de aula no CLCH (Centro de Letras e Ciências Humanas), enquanto universitários contrários ao tema fizeram corredores humanos do lado de fora. Os participantes do evento só conseguiram deixar o local sob vaias e xingamentos. Apesar do tumulto, não houve registros de agressões físicas ou feridos.


O filme “1964 – Entre Armas e Livros”, exibido nessa quarta na UEL, foi produzido pela produtora independente Brasil Paralelo. O filme, considerado “revisionista” por enxergar a assunção do poder pelos militares no Brasil uma revolução, e não um golpe, teve a exibição vetada pela rede de cinemas Cinemark. Desde então, a película, que tem entre seus entrevistados o londrinense Silvio Grimaldo, passou a ser disponibilizada gratuitamente, inclusive na plataforma de vídeos Youtube.


A exibição do filme em Londrina foi uma promoção do “UEL Livre”, um grupo de alunos de orientação política da direita formado por pessoas “descontentes com a hegemonia da esquerda” dentro da universidade. No ano passado, disputaram o comando do DCE (Diretório Central Estudantil) contra duas outras chapas, mas ficaram em segundo lugar.


“Como várias pessoas queriam ver, pensamos em exibir o documentário dentro da universidade, mas não pensávamos que haveria tanta repercussão”, afirma a mestranda Maiara Piva, uma das organizadoras.


O evento foi divulgado pelo site de relacionamentos Facebook, com inscrição para participar da exibição por meio de formulário digital. “Mas tomou mais evidência quando a esquerda se organizou [para boicotar a exibição]. E nós achamos que não seria correto recuar no nosso objetivo”, diz Maiara.


Os estudantes contrários à exibição de “1964” lotaram o CLCH de cartazes, desenhos e charges contra a ditadura. Enquanto o UEL Livre exibia o filme, os alunos projetaram o filme “Cabra Marcado para Morrer”, outro documentário de Eduardo Coutinho sobre o líder camponês paraibano João Pedro Teixeira, assassinado em 1962.


A reitoria e a diretoria do CLCH pediram aos militares que deixassem a UEL – como autarquia, a universidade é responsável pela própria segurança. Apesar de informações de que os próprios participantes teriam acionado os agentes, a membro do UEL Livre não soube confirmar a informação.


O prefeito do campus, Gilson Bergcoc, e alguns seguranças abriram espaço entre os manifestantes para que os participantes pudessem deixar a sala. Mesmo assim, os universitários permaneceram em volta, pressionando os espectadores do evento, que tiveram de descer um pequeno barranco para acessar o estacionamento. “Foi uma situação ruim. Tinham pessoas idosas, todos corríamos risco de queda”, afirma a organizadora, que confirma não ter havido agressões físicas, mas verbais.


A reportagem tentou conversar com manifestantes desde a manhã desta quinta-feira (4), mas não conseguiu nenhum porta-voz até o fechamento da reportagem.


UEL

A Universidade Estadual de Londrina se manifestou por meio de nota sobre o tumulto ocorrido durante de documentário revisionista no Centro de Ciências Humanas. “A gestão da Universidade atuou previamente no sentido de garantir a realização das atividades e acompanhou durante todo o dia a realização das mesmas garantindo a livre manifestação dos diferentes grupos, prezando pela segurança e integridade física de todos”, afirma.


A instituição reitera que o chamado para a Polícia Militar, por volta das 22 horas, não partiu da reitoria. “A Polícia Militar verificou que as atividades ocorriam normalmente, com livre manifestação dos diferentes grupos e, em seguida, se retirou do Campus”, diz a nota.


Por fim, a UEL reforça na nota sua posição “de defender a missão enquanto entidade pública comprometida com o desenvolvimento e a transformação social, econômica, política e cultural do Estado do Paraná, e com a construção de uma instituição plural e democrática.”

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