EUA se desculpam e mudam relatório
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quinta-feira, 09 de outubro de 1997
Agência Estado Brasília 
Arquivo folhaTensãoClinton: às vésperas de sua chegada, crise diplomática põem os dois países à beira de um desastre O embaixador dos Estados Unidos, Melvin Levitsky, telefonou no final da tarde de ontem ao ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, para se desculpar pela divulgação do relatório do governo norte-americano que critica instituições brasileiras e aponta corrupção no País. No início da noite, a embaixada dos EUA distribuiu nota informando que está retirando do relatório a frase a corrupção é endêmica na cultura brasileira, por considerá-la inexata.
Com a nota e o telefonema, Levitsky tenta contornar o mal-estar provocado pelo relatório na véspera da visita do presidente Bill Clinton, que chega ao país na segunda-feira à noite. O Guia Comercial sobre o Brasil, preparado pelo Departamento de Comércio dos EUA, foi distribuído pela Embaixada aos empresários que acompanharão a visita de Clinton e repercutiu mal, principalmente entre os líderes do Congresso.
Estamos à beira de um desastre, disse um experiente diplomata brasileiro sobre o caso. No telefonema a Lampreia, o embaixador americano também pediu desculpas pela entrevista concedida à imprensa na quarta-feira, na qual havia classificado o relatório como franco, honesto, justo e balanceado. Na conversa com o chanceler, Levitsky reconheceu que o documento é inoportuno, e disse que ele não reflete o pensamento do governo dos EUA, especialmente quanto às apreciações negativas feitas em relação aos poderes Legislativo e Judiciário do Brasil.
Foi uma atitude de humildade de quem estava arrogante disse o presidente do Congresso, senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), ao ser informado do pedido de desculpas do embaixador. O pedido deve ser bem recebido para criar um clima favorável à visita do presidente Bill Clinton, acrescentou.
Funcionários do governo brasileiro chegaram a comparar o ambiente carregado dos últimos dias ao clima que envolveu a visita do ex-presidente Jimmy Carter ao Brasil no governo do general Ernesto Geisel. Na época, o País havia acabado de assinar o Acordo Nuclear com a Alemanha, num gesto que desagradou a Washington. Em represália, Carter, defensor da política de defesa dos direitos humanos, incluiu na agenda da visita uma reunião com representantes da oposição.
À noite, o porta-voz do Palácio do Planalto, Sérgio Amaral, informou que a frase a corrupção é endêmica na cultura brasileira não consta da cópia do Guia Comercial que ele recebeu da Embaixada dos EUA, o que significa que a diplomacia norte-americana está distribuindo uma segunda versão, ratificada, do relatório.
A nota da Embaixada destaca outro aspecto do documento: Porém, gostaríamos de enfatizar a análise em geral positiva do clima para negócios no Brasil feita pelo Guia. Segundo o texto distribuído pela Embaixada, como pode-se observar no relatório, os Estados Unidos aplaudiram a transparência adotada pelo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso em relação ao processo de privatização, sua tolerância zero para com a corrupção, e o papel construtivo assumido pelo Brasil no desenvolvimento da Convenção Interamericana sobre Corrupção, assinada pelo Brasil em 1996. E a nota conclui: Lamentamos quaisquer mal-entendidos que o uso dessa frase fora de contexto possa ter causado.


