O governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), surpreendeu ontem médicos, assessores e jornalistas com a oferta de uma entrevista coletiva na sala de imprensa do Instituto do Coração (Incor), onde se encontra internado desde o dia 19. Na entrevista, Covas confessou ter sentido medo. O pedido para conversar com os jornalistas foi feito por ele próprio, por volta de meio-dia, e aprovado pela equipe médica após consulta à equipe de trabalho do governador. ‘‘Tive de descer correndo para conversar um pouco com vocês para mostrar que estou mais longe do fim do que podem pensar’’, afirmou o governador, logo que entrou na sala, às 15h15.
Durante os 28 minutos da entrevista, Covas alternou momentos de emoção, com brincadeiras e breves protestos dirigidos aos jornalistas. Quando falou da doença, afirmou: ‘‘Essa operação tem uma coisa que mexeu comigo na cabeça. Esse trem que eu fiquei, como é que chama? Colostomia. Bom, eu tinha medo disso, mexia muito comigo, não cheguei a comentar com a minha esposa, nem ela sabia. Mas como eu posso reclamar disso se Deus me deu a vida? Isso que é o principal’’, disse o governador.
Em seguida, completou, com a voz embargada: ‘‘As lágrimas não são de dor, não são próprias de mim, sou mais próprio de gritarias do que de lágrimas. Afinal, se o homem não sabe chorar, qual é a outra forma mais digna de mostrar os sentimentos?’’
A entrevista não fugiu de temas espinhosos como as articulações para 2002. ‘‘É inevitável, o tempo vai-se extinguindo e a movimentação vai acontecendo. A novidade mais recente que talvez tenha lido foi a candidatura do Pedro Simon (senador do PMDB-RS), que é uma figura pela qual tenho muita admiração. Acho que, no caso específico do meu partido, os nomes não têm sido diferentes do que os que têm sido lembrados, embora tenhamos outros nomes.’’
Covas mostrou sua bolsa coletora de urina, chamando-a de ‘‘cachorrinho’’, e segurou nas mãos de sua mulher, dona Lila, por um longo período. Sentado ao lado dela e dos médicos David Uip (infectologista) e Whady Hueb (cardiologista), ele chorou quando leu uma mensagem com uma história deixada por uma eleitora. O texto, intitulado Amigos, citava a dura passagem da borboleta pelo casulo como uma metáfora à necessidade de enfrentar as dificuldades na vida.
A emoção do governador contagiou jornalistas, assessores e secretários de Estado, que choraram. Quando se levantou para voltar ao quarto, Covas foi aplaudido e recebeu um buquê de cravos vermelhos dos jornalistas encarregados da cobertura de sua internação. Deixou a sala sorrindo.

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