O candidato ao governo do Estado pelo PMDB, Roberto Requião, abre a série de entrevistas com os principais concorrentes ao Palácio Iguaçu realizadas pela Folha. Requião tenta seu segundo mandato como governador. Atualmente é o segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto. Requião foi eleito governador do Paraná em 1990, deixando o cargo em 1994, para assumir uma das três cadeiras paranaeses, no Senado. Com quase 20 anos de carreira pública, Requião também já exerceu os cargos de deputado estadual, prefeito de Curitiba e secretário de Desenvolvimento Urbano do Paraná, durante o governo de seu principal adversário nessas eleições, o senador Alvaro Dias.








Folha - Hoje, a questão da segurança é uma das maiores preocupações da população paranaense. Apesar de todos os candidatos prometerem investir nesta área, o que o senhor pretende fazer de concreto?

Requião - Em primeiro lugar, a CPI do Narcotráfico mostrou que a nossa polícia, tanto a Civil como a Militar, está profundamente envolvida com o crime organizado. A primeira medida é a limpeza da polícia Civil e Militar. Eu pretendo no primeiro momento do governo, não nomear o secretário de Segurança, eu quero assumir a Secretaria de Segurança e vou me assessorar com um Conselho, a exemplo daquele conselho italiano das mãos limpas, composto por magistrados, pelo Ministério Público, por setores da sociedade civil organizada, como a OAB e tudo mais. A reorganização da estrutura de segurança certamente não significa a tolice de dobrar contingentes. A primeira fase é levantar o tipo de contravenção que ocorre na cidade, dependendo da característica do problema, você tem uma solução.

Folha Muitas vezes as polícias Militar e Civil investigam o mesmo caso quando na teoria uma deveria investigar e a outra prevenir. O senhor é a favor da separação de funções? E sobre a união das duas polícias?

Requião - A união das duas polícias é dobrar a corrupção na estrutura de segurança. Eu sou contrário a reunificação. Isso é para quem não tem coragem de fazer a limpeza necessária e capacidade de comando. É evidente que a polícia Civil é a polícia judiciária e a Polícia Militar, de patrulhamento ostensivo. Elas têm outras características, mas não significa que sejam estanques e congeladas.

Folha - A população de forma geral, tem medo da polícia. Como tratar isso?

Requião - Isso é a tolice da tolerância zero contra a criminalidade. ''Em um confronto, a nossa polícia atira antes'', disse um candidato ao governo do Estado. Isso devia ser penalizado criminalmente porque é um estímulo e a formação do esquadrão da morte. A polícia tem que ser tranquila, organizada, não deve atirar nunca, ela existe para investigar, prender bandido e entregar o contraventor à Justiça.

Folha - A questão dos salários do funcionalismo público é outra preocupação. Como o senhor pretende concretizar isso?

Requião - Eu fui governador e eu não quero prometer milagre, mas como governador, de três em três meses, pelo menos, eu corrigi a inflação. O governo resolveu acabar com o funcionalismo em benefício das organizações sociais autônomas, onde ele contrata seus cabos eleitorais sem concurso e sem limitações salariais impostas pelo estatuto dos funcionários.

Folha - Quais seus projetos direcionados para o fomento da agroindústria?

Requião - Em primeiro lugar, preço mínimo para culturas estratégicas. Existe uma necessidade enorme de diversificação da agricultura do Paraná, agora aquilo que for estratégico, terá a garantia do preço mínimo. O segundo: a garantia da safra, o seguro da safra. É o seguro cujo custo o Estado participa e que garante o agricultor, mesmo que ele tenha plantado com recursos próprios. E além disso volta o ''Panela Cheia'', que é o financiamento com equivalência em produto e eu pretendo abrir um banco público para substituir o Banestado, que é a Caixa Econômica do Paraná. Não será um banco comercial, será captador da poupança do Paraná, e será um banco de fomento e de serviços, aliás a complementação dessa sugestão vem do José Eduardo de Andrade Vieira, que é o diretor aqui do jornal. Esse banco público incorporará o Fundo de Desenvolvimento do Estado e criará um Fundo de Aval. Pretendemos, no primeiro momento, levar o Panela Cheia, em uma parceria com as cooperativas de crédito. Se isso der certo, podemos até dispensar a Caixa Econômica Estadual.

Folha - O senhor pretende dar prosseguimento ao atual modelo de política industrial?

Requião - Nem brincando eu prosseguiria em um erro desse porte. O grande projeto que temos, é o projeto de redução do preço da energia elétrica. A energia hidrelétrica nessas usinas praticamente amortizadas, nos custa cerca de US$ 4 o megawatt/hora. Produzimos mais energia do que consumimos e exportamos uma parte para São Paulo. A redução do preço da energia em 40%, é o único incentivo ou subsídio pretendido nesse tipo de projeto e, imediatamente, passamos a cobrar os 35% de impostos, então você fica com 5% de desconto que é rapidamente compensado pelos salários que alimentam o círculo virtuoso do desenvolvimento econômico. É uma forma engenhosa, muito interessante e só possível em um estado como o Paraná, que tem a Copel pública e tem mais energia produzida do que consome. O Lerner subdividiu a Copel em 29 empresas e isso significa retirar dinheiro da empresa de geração de energia e passar dinheiro para a apropriação privada. Isso é a privatização disfarçada e indireta da empresa de energia elétrica. Só de imposto em cascata nesse sistema bobo criado, estamos gastando R$ 75 milhões por ano. Mais R$ 5 milhões em salários, porque multiplicamos os departamentos de pessoal, temos um prejuízo de R$ 80 milhões, e a compra de energia da Argentina deu só no ano passado, um prejuízo de R$ 161 milhões à Copel, e sobre esse prejuízo, aquela empresa absurda, a Tradener, ganhou uma comissão de R$ 18 milhões sobre o prejuízo que causou à Copel. Se somarmos, são R$ 260 milhões. Seria suficiente para dar energia elétrica para as famílias pobres por oito anos de graça, ou por quatro anos de energia elétrica e água, para 300 mil famílias pobres.

Folha - O Banestado financiou inúmeros candidatos, que depois não faziam o pagamento. Como o senhor pretende fazer para esse novo banco não ter influência política?

Requião - Não é possível que um banco público tenha influência política. Deputado não existe para ser intermediário de favores e muito menos para tomar dinheiro em banco público e fugir do pagamento.

Folha - Temos dois institutos de pesquisa, o Iapar, e a unidade da Embrapa soja. Como elas serão tratadas no seu governo?

Requião - No meu governo terão recursos para pesquisas. Vou reabrir todas as escolas agrícolas que foram fechadas, e quero quadruplicar o número de escolas familiares rurais. Eu quero essa escola não tratando só dos jovens, porque têm agricultores mais maduros.

Folha - Na questão da Emater, descarta-se qualquer possibilidade de privatização?

Requião - Privatizar esses órgãos de pesquisa, terceirizar, é crime lesa-pátria. A trasmissão de conhecimentos através da extensão rural, que já são conhecidos no mundo, é tão ou mais importante. Não adianta ficarmos pensando só na geração de pesquisa, de novos conhecimentos, quando não conseguimos fazer chegar ao agricultor, por exemplo, aquilo que já está estabilizado no mundo.

Folha - Não se percebe uma efetiva cobrança das universidades que deveriam fomentar pesquisas produtivas. No seu governo, o senhor vai cobrar as universidades?

Requião - O governo não pressiona a universidade que tem autonomia administrativa, financeira e pedagógica. Quem banca e tem que cobrar é a sociedade. O que eu pretendo é criar órgãos de acompanhamento no ensino universitário, que é acabar com essa história de eleição direta, sem a participação da sociedade.

Folha - O senhor diz que pretende criar frentes de trabalho no Paraná. Aqui em Londrina, o Ministério Público exigiu que a Prefeitura acabasse com as frentes de trabalho porque não havia um sistema regular. Como vocês vão resolver isso?

Requião - Não podemos admitir que pessoas morram de fome por absoluta falta de uma atividade em função de uma formalidade legal. Hoje eu posso garantir que, com o acesso que eu tenho ao Congresso Nacional e ao Senado, se houver algum obstáculo legal, nós mudamos a legislação. As frentes de trabalho vão ocorrer.

Folha - Na área econômica, o que o atual governo fez que o senhor não faria?

Requião - Eu não faria nada do que ele fez. Ele se encantou com o neo-liberalismo, imaginou que ia modernizar a estrutura do Paraná, deu dinheiro de graça para montadoras, desviou dinheiro de geração, transmissão, distribuição de energia, se associando a grupos privados em negócios suspeitos, pedagiou as estradas.

Folha - Hoje, temos a porta da escola como ponto de venda de drogas, o professor e o funcionalismo usando como bengala, a questão salarial, deixando de dar aulas. Como seria no seu governo?

Requião - Eu não sou mágico, nem milagreiro, nem desonesto, para prometer dobrar ou triplicar o salário no primeiro mês de governo. Temos que reestudar o ciclo básico. Aquela correção de fluxo não deu certo. Além disso pretendo criar uma Universidade do Professor, que vai incorporar o Instituto de Educação do Paraná e transformado em um órgão de excelência. Esses projetos vão ser implantados, e vamos reformular outra criação do nosso governo, que é o Fundo Rotativo. O Fundo Rotativo precisa ter mais recursos, mais autonomia. Será utilizado para a compra de produtos da merenda escolar na região onde fica a escola, estimulando os produtores locais.

Folha - Como seria a política de saúde no seu governo?

Requião - Hoje as famílias pobres não podem pagar água para beber, cozinhar, e se tornam presa fácil de doenças infecto-contagiosas, das endemias e epidemias. Oitenta e cinco por cento dos atendimentos no SUS são de doenças infecto-contagiosas e 65% dos internamentos, são de doenças gastro-intestinais. Então, essa tolice de cortar água e luz de família pobre, tem que ser sustada. Eu pretendo dar energia e água de graça para as famílias pobres em uma quantidade mínima, 10 metros cúbicos de água, 100 kw/hora de energia elétrica. Isso vai custar extraordinariamente mais barato do que o custo dessas famílias na ponta da saúde, com médicos, hospitais, e remédios. Ao lado disso, vem o programa do leite para as crianças, que será a antecipação do fantástico programa nacional, que é o Merenda Escolar. Vamos dar um litro de leite para cada criança pobre até que ela entre em uma escola ou creche pública e tenha a alimentação complementada pela merenda escolar. Queremos reforçar os hospitais regionais que devem ter capacidade de resolução. Cidades ou bairros com mais de 30 mil habitantes devem ter um posto de saúde 24 horas e um Siate. Vamos estimular o programa Médico da Família.

Folha - Sabemos que os recursos do estado estão exauridos. Como o senhor vai fazer para implantar esses projetos?

Requião - Não estão exauridos. Se tivessem exauridos, você não veria em cada break da televisão, uma propaganda de R$ 1 milhão. Governar é hierarquizar prioridades. Por exemplo, o projeto da água, custa 25% do lucro da Sanepar, que teve 39% do seu capital vendido para Vivandi, um grupo de estelionatários franceses que estão indo para a cadeia na França. A finalidade da Sanepar nunca foi ter lucro e distribuir dividendos para sócios. Vamos fazer a Sanepar arcar com o custo do programa de gratuidade para os pobres.

Folha - Como o senhor deve trabalhar com o esporte?

Requião - O esporte tem que ser estimulado como lazer, que diz respeito a eugenia do povo, Jogos Universitários, jogos colegiais, têm que ser reestimulados. Precisamos equipar os municípios com quadras, ginásios. O esporte de lazer é dirigido a melhoria da qualidade de vida do povo.

Folha - O Severino Cavalcanti (candidato do PSB) deu uma entrevista na CNT, onde disse que tinha um comitê paralelo e ele trabalhou, teoricamente, no caixa 2 na sua eleição de 98. O que o senhor poderia falar sobre isso?

Requião - Não é verdade. Ele não trabalhou em comitê nenhum, não existia caixa 2, inclusive a legislação eleitoral, a prestação de contas, era completamente diferente. E, se o Severino, em um comitê, do qual não tive conhecimento, resolveu contratar uma dupla para fazer um show, é problema dele, como seria meu e seu o problema se hoje resolvessemos contratar uma dupla caipira para ir ao calçadão de Londrina, cantar alguma coisa a favor do Lula, do Ciro Gomes ou do Serra. Seria uma despesa minha e sua e jamais poderia ser atribuída a um caixa 2 de qualquer candidato. O Severino é empregado da Prefeitura e o do Estado nos últimos 20 anos, e eu jamais trabalhei com caixa 2.

Folha - Com relação ao Álvaro Dias, vocês foram parceiros em um determinado momento, e hoje estão em posições antagônicas. O que aconteceu?

Requião - A minha opinião sobre a Copel é diametralmente diferente da dele. O Alvaro está propondo de forma bem concreta e objetiva, o prosseguimento do governo neo-liberal do Jaime Lerner. Ele não tem posição firme a respeito do pedágio, nunca falou da privatização da Sanepar com o consórcio dominó e pretende continuar o fatiamento da Copel. O Alvaro é meu amigo, na última campanha ele fez um acerto econômico com o Jaime Lerner e o apoiou. Nos abandonou. E nessa campanha, eu tentei fazer uma coligação com o Alvaro em cima de um programa de governo, até porque o meu objetivo primário era ser senador para ser candidato a presidência da República na próxima eleição, mas a proposta do Alvaro em relação a sua opção pela continuidade do projeto neo-liberal do Jaime Lerner, e o tipo de associação que ele fez, nos afastaram. O Álvaro continua senador e eu me senti ética e moralmente obrigado a colocar em risco o meu mandato e a minha participação na política nacional e estadual, para oferecer uma alternativa ética e moral para o Paraná e um belo programa de governo.

Folha - Na maioria dos governos, quando termina a eleição há o loteamento das secretarias. O senhor vai fazer isso?

Requião - Eu já fui governador e vou fazer a mesma coisa, eu escolho os secretários. A Assembléia legisla e fiscaliza o estado. Não existe loteamento de governo. Isso inviabiliza qualquer tipo de governo.

Folha - E o pedágio?

Requião - Esse pessoal corta mato, tapa buraco e pinta asfalto, e devem receber por isso e tão somente por isso. Eu quero repetir o Maluf, na Carta Capital. ''Se esses contratos de pedágio tivessem sido feitos em Cuba, o Fidel Castro passava no paredão essa gente toda.'' Eu vou reduzir o pedágio e se eles não concordarem, eu vou anular os contratos, porque não existe direito adquirido contra o interesse público e o erro do governo não pode comprometer o erro do estado. E se eles forem à Justiça, sou eu quem vai processá-los para que eles devolvam o que eles receberam e não deviam ter recebido. (Colaboraram Walter Ogama, Lucilia Okamura e Cláudio Osti)

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