Se por um lado os frequentes escândalos de corrupção investigados pela Polícia Federal (PF) se revelam um processo saudável para a democracia - à medida em que alertam o eleitor para cautela nas opções futuras de voto -, por outro, eles podem surtir efeito contrário: anestesiam o cidadão, atropelam a assimilação das informações e geram uma descrença sem precedentes na classe política.
As análises foram feitas pelo cientista político Ricardo Oliveira, professor de Ciência Política e Sociologia na Universidade Federal do Paraná (UFPR), pela analista política e historiadora Lúcia Hippólito.
Para Oliveira, quanto maior o conjunto de denúncias, ''mais saudável isso é para a democracia''. Na avaliação do cientista político, o efeito se revela dessa forma porque, defende, o eleitor tem interesse nas investigações. ''Ele começa a separar os que são responsáveis pelos que não têm culpa no processo'', disse, para completar: ''Os escândalos dos anos passados como mensalão, sanguessugas e compra de dossiê, por exemplo, não abalaram a popularidade do presidente Lula, mas foram importantes porque mostraram vários atores políticos importantes envolvidos nos escândalos. A própria queda do ex-ministro (José) Dirceu é um exemplo, e é interessante notar que o Brasil absorveu as denúncias m um ambiente de tranquilidade institucional. É uma prova de maturidade'', acredita.
Por outro lado, o cientista político ponderou que operações como a Navalha, que investiga relação entre empreiteiros, parlamentares e ex-governadores - e que custou o cargo do ex-ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, também investigado, e pôs na berlinda o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB) -, mostram que ainda há muito o que se avançar no combate à corrupção. ''Trata-de um escândalo que envolve vários partidos e váruos estados, e que mostra, também, que são urgentes aspectos da reforma política como o financiamento público de campanha para se evitarem esquemas de fraude'', afirmou, para concluir: ''A PF tem mais é que ganhar autonomia, capacidade e logistica para investigar grandes esquemas de corrupção. Mas só por uma reforma política efetiva é que novos escândalos serão prevenidos, com a eliminação de alguns pontos de estrangulamento que os produzem''.
A analista política e historiadora carioca - que conversou com a FOLHA antes de uma palestra recente sobre o assunto, em Londrina - diverge de Oliveira. Para ela, a profusão de operações gera uma banalização do assunto, já que ''o escândalo de hoje transforma o de ontem em uma notícia velha''. Entretanto, Lúcia explica que isso ocorre porque, defende, o Brasil avançou nos mecanismos de investigação, mas não nos de repressão.
''Você tem sempre aquela impressão de que a polícia prende, e a Justiça solta. Por quê? Porque avançamos muito nos instrumentos de investigação, seja pela PF, pelo Ministério Público ou pelo Coaf, mas devemos muito ainda na prevenção. Enquanto não se melhorar nisso e se punir a corrupção com rigor, ela não avai acabr nunca - porque a tendência à patifaria é eterna; é ilusão achar que não'', declarou, para complementar: ''Só que pode diminuir. Por isso é tornar mais arriscado, mais difícil - talvez, aí, o corrupto pense duas vezes antes de agir -, e rever questões como liberação de verba por emenda e os instrumentos de fiscalização, ainda muito insipientes''.
Outro aspecto de mudança necessário, na avaliação da analista, deve centrar foco contra privilégios judiciais como o foro privilegiado e a prisão especial. ''Avançamos só no miolo; falta muito ainda.''

mockup