No dia 1º de abril, estudantes da UFPR e da representação paranaense do Levante Popular da Juventude retiraram o busto do ex-reitor Flávio Suplicy de Lacerda, ao lado da reitoria da universidade. O mesmo ato havia sido praticado por manifestantes em 1968.
Alexandre Boing, estudante de História da UFPR e militante do Levante, aponta que o protesto foi motivado por três atitudes de Suplicy de Lacerda quando foi ministro da Educação durante a ditadura militar, entre 1964 e 1966.
"Primeiro, a tentativa de cobrança de mensalidade (em universidades públicas). Segundo, ele foi o responsável pela assinatura dos acordos MEC-Usaid, que visavam submeter a educação brasileira aos interesses dos Estados Unidos. Terceiro, a chamada Lei Suplicy de Lacerda, de 64, que colocou na ilegalidade a União Nacional dos Estudantes (UNE) e demais entidades estudantis", diz Boing.
Até a semana passada, o busto continuava em poder dos manifestantes - "escondido", segundo Boing. Eles não permitiram que a reportagem da FOLHA fizesse fotos do artefato. "Só vamos devolver quando for construído um espaço de memória onde será colocado o busto", afirma Boing. "Quando você visita Auschwitz (rede de campos de concentração na Polônia que foi utilizada durante a ocupação nazista), na entrada existe um espaço de memória para lembrar o que representou aquele local. Nós precisamos de espaços assim no Brasil, para que episódios como esses (ocorridos durante a ditadura) não se repitam."
Na semana passada, os estudantes realizaram uma reunião com representantes da Comissão da Verdade da UFPR, mas não chegaram a um acordo para a devolução do busto.
Em nota divulgada um dia após o protesto, o reitor da UFPR, Zaki Akel Sobrinho, havia feito críticas à retirada do busto e lembrou de ações de Suplicy de Lacerda para o desenvolvimento da universidade: o "esforço" que resultou na federalização da então Universidade do Paraná, a reforma do Prédio Histórico da Praça Santos Andrade, a construção do complexo da Reitoria, da Biblioteca Central, Casa da Estudante Universitária de Curitiba, do Hospital de Clínicas e do Complexo do Centro Politécnico.
Akel apontou que o apoio de Suplicy de Lacerda ao golpe e sua participação no governo militar não justificam a ação dos manifestantes. "Por mais controversas que tenham sido suas ações e intenções durante sua passagem pelo governo federal, não nos cabe permitir ataques ao nosso patrimônio histórico, muito menos à memória de um dos nossos professores, que exerceu o cargo de reitor por dois períodos, totalizando quase 19 anos como dirigente máximo de nossa instituição", alegou. (F.G.)


Continue lendo:

- Para advogado, outros períodos podem ser reanalisados

- Comunidades não parecem se importar

mockup