Estudantes protestam contra corrupção
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de agosto de 2005
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Cara de palhaço, pinta de palhaço mas com todo respeito ao rei do riso eles usaram dos artifícios da palhaçada, como o nariz vermelho, para traduzir com bom humor o sentimento dos brasileiros em relação aos últimos escândalos políticos, através de uma passeata ontem de manhã pelas ruas da área central, que terminou com a lavagem simbólica da calçada em frente a agência dos Correios.
Cerca de 200 alunos do Colégio Estadual Marcelino Champagnat, com o apoio dos pais e professores, realizaram a marcha para cobrar a punição dos envolvidos nas denúcias de corrupção apuradas pelas CPMIs dos Correios e do Mensalão.
A manifestação ganhou uma conotação política paralela ao alcançar a Praça Floriano Peixoto, cenário tradicional de atos cívicos, onde um grupo de estudantes capitaneados pela União Londrinense dos Estudantes Secundaristas (Ules), esperava os alunos do Champagnat.
''Toda manifestação é válida, desde que seja do interesse dos estudantes. Estamos aqui para conscientizar os alunos de que não podem ser utilizados como massa de manobra política e de futuros candidatos'', argumentou o presidente da Ules, Diogo Takeo Hendo, ao ser questionado sobre a preocupação dos organizadores da passeata do Champagnat de que a entidade estudantil tentaria se infiltrar no movimento para conseguir apoio para a reforma da sede da União, situada na Avenida Duque de Caxias.
''Em todos as oportunidades que tivermos vamos levar essa bandeira. A sede tem mais de 50 anos e precisa de uma reforma'', acrescentou Hendo. A marcha foi colocada em movimento no dia 29 de junho, quando os estudantes do Champagnat marcaram um dia de protesto contra a corrupção assistindo às aulas, vestidos com roupas pretas.
Ontem, vassoura virou estandandarte, caixas de pizzas, cartazes e o espírito de indignação dos caras pintadas, que saíram às ruas para pedir o afastamento do ex-presidente Collor, voltou num versão ''cara de palhaço''.
Etienne Duim, aluna do terceiro ano do ensino médio do colégio, foi quem propôs a manifestação, que logo contou com o apoio dos colegas, professores e pais, que autorizaram a participação dos filhos na marcha. Apesar de ter apenas 17 anos, a estudante já sabe o que significa o descaso das autoridades em dar respostas aos brasileiros.
Na primeira semana do mês de julho, Etienne mandou uma carta endereçada ao presidente Lula. ''A carta não chegou ao presidente. Recebi uma resposta padrão, sendo que até a assinatura era virtual. Então, como nós comentamos muito em sala de aula a situação de corrupção no país, veio o desejo de mudança na política e a idéia da passeata'', lamentou a estudante, ressaltando que o texto que recebeu do Planalto afirma que o governo está preocupado em acompanhar as investigações e que as providências serão tomadas.
''Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam''. Esta foi apenas uma das frases estampadas nas faixas que percorreram as ruas São Vicente, São Paulo, Sergipe e Hugo Cabral até o Coreto, onde os manifestantes cantaram o Hino Nacional.
Os alunos recrutados pela Ules, que estavam se esquentando do frio na Praça Floriano Peixoto, se acotovelaram para ''ver a banda passar''. Sob a súplica de que os estudantes deveriam se unir neste momento, acabaram engrossando o protesto. Porém, as bandeiras políticas levantadas pelos manifestantes dos dois grupos não se misturaram.
O Hino Nacional foi cantado mais uma vez no Calçadão e em frente à agência dos Correios, na Avenida Rio de Janeiro.
''Sou contra o que está acontecendo. É uma forma de nos manifestarmos, já que o povo não tem acesso ao Senado e mesmo que vote em branco não consegue resolver a situação'', questionou o estudante Rafael de Oliveira, 15 anos, aluno do segundo ano do ensino médio do Champagnat, enquanto os colegas lavavam simbolicamente a calçada dos Correios.
Para os professores do Champagnat, a marcha foi uma oportunidade dos estudantes exercerem a cidadania. ''Nós formamos cidadãos críticos a partir do momento em que os jovens colocam a revolta contra a situação'', reforçou a professora de Sociologia, Marilene Torresan.
Depois da lavagem da calçada dos Correios, os estudantes voltaram pelo Calçadão, se dirigindo ao Terminal Urbano, onde cantaram mais uma vez o Hino Nacional. O local marcou a dispersão dos manifestantes que num dos cartazes que empunhavam, deixaram um questionamento para a população: ''De que adiantam manifestos, se as cuecas continuam cheias?''


