Estoura primeiro escândalo no governo Lula
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2004
Christiane SamarcoVera Rosa<br> Agência Estado 
Brasília - Surpreendido pela primeira grande denúncia de corrupção praticada por integrantes de seu governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou ao ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, ainda na quinta-feira, que demitisse o subchefe de Assuntos Parlamentares da Presidência da República, Waldomiro Diniz. A demissão só foi anunciada ontem, a sexta-feira 13 que estragou a festa dos 24 anos do PT. Mas o escândalo da fita de vídeo em que Diniz pede doações de campanha e propina para si próprio ao bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, estourou dentro do governo e do partido na véspera.
Ministros e presidente tiveram uma madrugada difícil, depois de acertarem a demissão de Diniz em reunião tensa, com a participação de Dirceu. Àquela altura, tinham em mãos a carta de demissão do funcionário jurando inocência e dizendo que sairia para não comprometer o governo. Preferiram não divulgá-la. No fim da manhã de ontem, Rebelo e o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, anunciaram no Palácio do Planalto que o homem de confiança do ministro da Casa Civil, José Dirceu, já estava demitido e sob investigação em inquérito aberto pela Polícia Federal.
''O presidente determinou a exoneração do funcionário, o que também ocorrerá a seu próprio pedido'', disse Rebelo. Em seguida, Thomaz Bastos deu pistas da estratégia que o Planalto pretende adotar no tratamento do caso. ''Já está aberto o inquérito para apurar os fatos ocorridos no Rio, em 2002, de forma ampla para identificar as articulações possíveis. Vamos levar a apuração às últimas consequências'', afirmou o ministro, deixando claro que os fatos são anteriores ao governo Lula e ocorreram a mais de mil quilômetros do gabinete presidencial.
O Planalto quis reduzir o episódio a uma irregularidade cometida por um simples funcionário de terceiro escalão, punida com a degola. Em vão. Durante toda a manhã de ontem, parlamentares de oposição e até aliados revezaram-se na tribuna do Congresso para cobrar esclarecimentos do governo e do PT, partido que sempre pregou a abertura de Comissões Parlamentares de Inquérito para apurar ''falcatruas'' de administrações anteriores.
Agora são os tucanos que pedem uma CPI, depois que o próprio Diniz admitiu que o dinheiro do jogo do bicho foi parar na campanha derrotada do petista Geraldo Magela ao governo do Distrito Federal em 2002. Não só: ainda na presidência da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), ele também negociou contribuições mensais de R$ 150 mil para Benedita da Silva (PT) e Rosinha Matheus (PMDB), hoje governadora do Rio de Janeiro. ''Ao governo não cabe dissimular ou frear qualquer tipo de ação do Congresso, que é um poder soberano'', disse Rebelo.
Em vez de correr o risco de ampliar o escândalo sob denúncias de uma ''operação-abafa'', o governo vai preferir administrar o dia-a-dia da crise no Congresso. Mas CPI, só se não tiver outro jeito. ''Só se justifica uma CPI para apurar fatos e, nesse caso, o fato está comprovado'', afirmou o líder do governo na Câmara, Miro Teixeira. ''A mim não resta dúvida da responsabilidade penal de Waldomiro, mas o presidente já tomou uma atitude extrema.''
Dois depoimentos colhidos na semana passada pelo Ministério Público federal mostram que Diniz tinha uma estreita relação com donos de casas de bingos e banqueiros do jogo do bicho. Diniz, segundo o bicheiro Carlos Roberto Martins, foi quem incentivou seu colega Carlos Cachoeira a transferir seus negócios para o Rio de Janeiro. A intenção de Diniz era pressionar o empresário Alejandro Ortiz um dos mais importantes donos de bingos do País a desistir do negócio no Estado.
Diante dos fatos, a Polícia Federal indicou ontem o delegado Antônio César Fernandes Nunes para presidir o inquérito que vai apurar o envolvimento de Diniz com a contravenção.


