Autor do depoimento que levou o Ministério Público (MP) a oferecer nova denúncia contra o vereador Orlando Bonilha (PR) e que pode provocar um processo de cassação, Nelson Dequech, 68 anos, está experimentando duas sensações. Por um lado, se diz ''aliviado''. Por outro, afirma que está ''pagando caro por ter dito a verdade'', referindo-se à exposição de seu nome na mídia e às críticas feitas por uma parcela da sociedade que acredita que ele agiu como corruptor.

Foi ele quem declarou ao MP que teve de pagar R$ 12 mil a Bonilha em dezembro de 2003, quando o vereador era presidente da Câmara, a fim de ter um projeto de lei colocado em votação. A matéria tratava da mudança de zoneamento de uma rua na Zona Oeste de Londrina, para permitir a instalação de uma cervejaria num terreno comercializado por Dequech.

Apontado como vítima de extorsão pelo MP, Dequech, que é diretor-presidente do Instituto do Câncer de Londrina (ICL), disse em entrevista à FOLHA que pretende manter um bom relacionamento com a Câmara.

FOLHA - O que levou o senhor a denunciar a cobrança de propina passados quatro anos do fato?

Nelson Dequech - Eu não denunciei ninguém, é bom que isso fique claro. Intimado pela promotoria, fui esclarecer que não subornei ninguém. Eu podia mentir, mas escolhi dizer a verdade.

FOLHA - Como se desenrolou a história?
Dequech - Eu tinha o terreno e apareceram uns investidores de Lins (SP) querendo investir em uma cervejaria, um negócio de cerca de mais ou menos R$ 3 milhões. Como era preciso mudar o zoneamento da área para instalar o empreendimento, fui com o Durães (José Alves Durães, dono da cervejaria Fábrica 1) falar com o prefeito (Nedson Micheleti), que se entusiasmou com a idéia porque iria aquecer a economia, gerar emprego, promover turismo. Não pedimos nada errado. Eu jamais aceitaria se fosse algo irregular, essa é minha cidade. Só fui procurar a Câmara porque o projeto (de autoria do Executivo) estava demorando para ser votado.

FOLHA - Segundo relatório da Câmara, na segunda quinzena de dezembro, quando o senhor procurou a Casa, o projeto já estava na pauta. Não fora votado porque precisava de modificações sugeridas pelo próprio Conselho Municipal de Planejamento Urbano (CMPU). O que te fez pensar que estava demorando?
Dequech - Já tínhamos atendido várias exigências, como o Estudo de Impacto de Vizinhança, e o próprio secretário de Obras, Aloysio (de Freitas), disse que estava tudo certo. Só que já tinha passado um tempo e o investidor estava quase desistindo de se instalar aqui, tinha uma oferta em Araçatuba (SP). Então fui à Câmara e falei com vereadores, que me disseram que era o Bonilha que colocava os projetos em pauta.

FOLHA - Essa informação não está de acordo com o Regimento da Câmara. O senhor se lembra quais vereadores disseram isso?
Dequech - Falei com vários, não me lembro quais. Faz muito tempo.

FOLHA - O que exatamente ouviu de Orlando Bonilha?
Dequech - Ele falou que com R$ 12 mil agilizaria o processo. Voltei, conversei com o Durães, eu disse ''isso aqui eu sei que existe, mas não é da minha índole não.'' Mas ele temia ter que parar a obra, e todo trabalho já feito seria em vão. Então, entregamos o dinheiro. Fiquei com essa história enroscada na garganta durante quatro anos e meio. E agora, intimado pelo MP, por um impulso momentâneo de contar a verdade estou tendo muita dor de cabeça. Se eu pratiquei uma irregularidade, estou pronto a responder por ela.

FOLHA - O senhor se arrependeu de contar o fato?
Dequech - Não. Eu sei que vou enfrentar bastante coisa. Mas pelo menos para minha consciência estou tranquilo.

FOLHA - O senhor teve medo de denunciar o caso ao MP ou à imprensa na época?
Dequech - Isso é complicado. Naquela época eu não estava pensando nisso, em virar a mesa. Eu estava focando o negócio, o processo.

FOLHA - Como ficou sua relação com os vereadores, com quem o senhor sempre manteve um diálogo devido à posição de diretor-presidente do ICL?
Dequech - Em relação ao serviço voluntário que presto no hospital, eu recebi apoio de todos os vereadores. Eu ainda não fui lá (depois da denúncia do MP), nem fui procurado por nenhum vereador. E se for, vou dar essa explicação que estou te dando. Espero continuar tendo um bom relacionamento com a Câmara. Se ali é um balcão de negócios, não é da Câmara, é de alguns vereadores. Com o Bonilha eu sei que é.

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