Estou estendendo à política o ministério de atender as pessoas
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sábado, 03 de janeiro de 2009
Fábio Cavazotti<BR>Reportagem Local 
A principal pergunta em Londrina ontem, era: quem é o Padre Roque (PTB)? - agora prefeito interino. Conhecido no meio católico, especialmente no Jardim Califórnia, onde comandou por seis anos a Paróquia de Santa Rita de Cássia, ainda é desconhecido pela maior parte do eleitorado. Nascido em 1960, em Ibitinga, interior de São Paulo, o prefeito interino, concedeu a seguinte entrevista à FOLHA sobre sua trajetória:
FOLHA - Como foi sua vida antes de se tornar padre?
Padre Roque - Sou o primeiro filho de um casal que sempre trabalhou na lavoura. Consequentemente, até os 22 anos fui bóia fria e ajudei a família nas lavouras de café, arroz, feijão e todo tipo de agricultura. Depois, nos mudamos para cidades maiores, fiz academia de polícia e fui guarda de bancos durante dois anos. Depois também trabalhei de guarda numa usina de açúcar, em São Carlos. Isso, antes de vir para o Paraná.
Como a Igreja entrou em sua vida?
Com 22 anos, resolvi estudar e fiz o seminário menor com os Padres Claretianos, em Rio Claro. Depois conheci o Paraná, fiz filosofia em Maringá e, em 90, vim para Londrina estudar Teologia. Parei um ano e meio porque estava em dúvida na vocação, mas voltei em 93 e fui ordenado padre em 95. Então, sou padre há 13 anos.
O que lhe chamou para a vida na Igreja?
Eu sempre desejei trabalhar nas comunidades. Eu dava aula de violão, ensinava as pessoas, aí comecei a estudar a Bíblia, a liturgia, a celebração da missa, e a partir daí começou a me despertar essa vontade. Comecei a fazer estágios vocacionais: todo mês éramos convidados, os coroinhas, a conhecer o seminário. Então, tive essa vontade de entrar no seminário e estudar.
E a música?
Eu tenho um CD, à Santa Maria de Deus, gravado em 92. Quem sabe, daqui para a frente, aparece um novo projeto.
Como foi o sacerdócio em Londrina?
Quando seminarista a gente mora no seminário Paulo VI - na zona sul - e nos finais de semana fazemos pastorais. Fiz pastorais em Tamarana, Guaravera, e, em Londrina, no conjunto das Flores e no Cafezal. Em 95, me tornei padre e fiquei um ano na Catedral. Nós começamos a missa do meio-dia, que ainda existe, com 2.500 pessoas. Depois fui designado para o Jardim Califórnia, onde fiquei por seis anos.
Qual sua principal característica como padre?
Minha principal característica na homilia é sempre trazer a pessoa de Jesus Cristo à realidade. Se Jesus Cristo viesse hoje, qual realidade ele encararia? Do lado de quem Jesus estaria? Claro que do lado do marginalizado, do pobre, do oprimido e do doente.
Hoje, o senhor não celebra mais missas...
Não. Nem celebro casamentos e batizados. Mas dentro do ministério a gente pode visitar doentes. Então, vou nos hospitais rezar com as pessoas, vou na casa das famílias, e também em velórios. Agora, estou estendendo à vida política o ministério de atender as pessoas. As pessoas tem necessidade de serem ouvidas.
A terminologia correta para designá-lo é padre licenciado?
Padre nunca deixa de ser padre, mesmo que saia do ministério. Uma vez padre, padre para sempre. Oficialmente, realmente pedi licença, há uns quatro anos. Quando ainda estava no Brasil, já estava um pouco desanimado na paróquia, muito cansaço, muito trabalho. Eu fui para o Canadá e teve mais sofrimento: as maneiras de tratamento lá são diferentes. Daí escrevi para o bispo daqui, na época dom Albano, e pedi licença sacerdotal.
Ao deixar a batina, o senhor chegou a trabalhar no gabinete do ex-vereador Sidney de Souza. Qual a natureza de sua relação com ele?
Não fui contratado pelo Sidney, mas pela Maria Ângela Santini, que tinha uma vaga. E como aqui (gabinete da presidência) também precisava, vim fazer uma experiência. Fiquei seis meses aqui e dois meses com a Maria Ângela. A minha relação com ele é de diálogo até hoje. Naquele período eu também trabalhei como caixa de um supermercado e numa agência de turismo.
O que o senhor foi fazer no Canadá?
Eu tinha uma grande vontade de ser missionário e aprender uma nova língua. Então, recebi um convite para dar uma palestra lá e o padre me chamou para fazer um trabalho. Eu vi a oportunidade de aprender o inglês e também trabalhar na comunidade de língua portuguesa.
Em agosto de 2001, o senhor adotou duas crianças. Como foi essa paternidade?
Na época que adotei as crianças fui muito bombardeado, de vários lados. Mas era uma questão nobre: filhos de uma prostituta, de pais diferentes... Eles vieram, ficaram dois anos, contratamos gente para trabalhar com eles e tinham duas senhoras que estavam sempre lá. Quando os conheci, eles tinham 4 e 8 anos. Hoje, estão moços. O Gabriel tem 17 anos e passou o ano no seminário, quis conhecer como é. E o outro, que mora com a mãe, perto de Cafelândia, está estudando. A mãe deixou a prostituição, graças a Deus. Mas as pessoas confundem muito: - será que mulher vai aparecer, não vai aparecer...?
Quando o senhor foi para o Canadá, dizia-se que foi por envolvimento amoroso. O senhor chegou a se casar?
Não, não. Mas, depois que você sai do ministério, você pode namorar, está livre. Aqui em Londrina eu senti dificuldades. Eu tive uma namorada e as pessoas me cobravam muito porque me chamam de padre mesmo estando perto dela. Existe também uma certa dificuldade para quem está ao lado. Hoje sou livre e se eu não quiser voltar ao ministério posso constituir uma família.
O senhor está solteiro hoje - ou está namorando?
Ainda estou solteiro.
Então, o senhor é o melhor partido da cidade agora: padre, prefeito de Londrina, solteiro...
(risos) Quem sabe... Eu estou tranquilo, convivo muito tranquilamente com a minha afetividade e com a minha sexualidade. Se porventura um dia aparecer alguém que toque o coração, quem sabe.


