O senador cassado Luiz Estevão disse ontem não ter ficado preocupado com a divulgação feita pela Procuradoria-Geral da República de que ele teria feito depósitos de R$ 1,05 milhão de suas contas em Miami para as do ex-presidente do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo (TRT-SP), Nicolau dos Santos Neto, na Suíça. Em vez de responder à denúncia, Estevão preferiu assistir pela manhã a uma partida de seu time de futebol, o Braziliense, na cidade-satélite de Brazilândia. O time do ex-senador participa do Campeonato Brasiliense da Segunda Divisão.
As remessas - três ao todo - foram realizadas em abril de 1994 por meio de duas contas que o ex-senador mantinha no Delta Bank em Maimi em nome de Leo Green e James Tower, nomes fictícios. As transferências de Estevão para a conta do ex-presidente do TRT foram anunciadas anteontem pela Procuradoria-Geral da República e pelo Ministério da Justiça. O ex-senador e Nicolau são acusados de participação no esquema de desvio de R$ 169 milhões das obras superfaturadas do fórum trabalhista.
Segundo a CPI do Judiciário, parte do dinheiro desviado teria ido parar nas contas das empresas do Grupo OK, de propriedade de Luiz Estevão, que teve o mandato cassado este ano.
Os depósitos na conta do ex-juiz já eram conhecidos, mas só nesta semana chegaram ao Brasil as provas de que é Luiz Estevão o dono das contas. Um documento exibido no Ministério da Justiça mostra a assinatura do ex-senador nos formulários de abertura de contas, que estão inativas desde 96.
Para as procuradoras da República Isabel Groba, Maria Luísa Duarte e Janice Ascari, que investigam o caso nas áreas civil e criminal, o documento é ‘‘prova cabal de corrupção ativa.’’ ‘‘Isso só mostra que Luiz Estevão era o chefe da quadrilha. Ele foi o maior beneficiário do dinheiro do fórum’’, disse Isabel Groba.
Foram descobertos mais de US$ 3 milhões oriundos do dinheiro depositado pelo Tesouro nas contas do Grupo Monteiro de Barros e depois destinados ao ex-senador.
Segundo a procuradora, esse dinheiro veio da empresa Contrec, suposta importadora de livros cujo envolvimento no esquema já era conhecido, para uma empresa chamada Manaus Trading e, dali, para a conta no Delta Bank. ‘‘Isso faz do ex-senador o maior beneficiário pelo desvio’’, disse Isabel.
Em contato com a reportagem, o ex-senador disse que ainda não tem estratégia para se defender. ‘‘O processo está na Justiça e só meu advogado vai falar sobre ele’’, esquivou-se. Estevão também negou a existência de contas em seu nome no Delta National Bank, de Miami.
O ex-senador lembrou que o assunto está na esfera judicial e por esse motivo prefere não fazer comentários a respeito. O ex-senador informou que já manteve contatos com seu advogado de São Paulo em relação ao caso, mas não adiantou detalhes sobre a conversa.

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