Brasília - Em entrevista a veículos estrangeiros, a presidente Dilma Rousseff afirmou ontem que a defesa do impeachment feita pelo vice-presidente Michel Temer deve-se à impossibilidade do grupo do peemedebista ser eleito em uma eleição direta. A petista voltou a dizer que o vice-presidente conspirou "de forma aberta" contra ela e ressaltou que os defensores de seu afastamento "estão vendendo terreno na Lua", em uma referência às articulações entre PMDB e PSDB para a composição de uma nova equipe ministerial caso o impeachment seja aprovado.

"A conspiração se dá pelo fato que a única forma de chegar ao poder no Brasil é utilizando de métodos, transformando e ocultando o fato que esse processo de impeachment é uma tentativa de eleição indireta, de um grupo que de outra forma não teria acesso pelo único meio justificável, que é o voto direto", criticou.
A petista disse que vai resistir até o fim do processo com "honra" e "dignidade" e voltou a criticar o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Segundo ela, o peemedebista acolheu o pedido de impeachment como "vingança" e na teoria do "quanto pior, melhor" para o país.

"Ele tem um antecedente que não o abona como juiz de nada, mas como réu", disse.
Segundo ela, o processo de impeachment "não vai trazer estabilidade política ao país", uma vez que rompe "a base da democracia". "Eu acredito que, sem democracia, o Brasil não se transforma, não recupera sua capacidade de crescimento", afirmou.

Em seu discurso, Dilma disse que desde o mandato do ex-presidente Getúlio Vargas o país tem um "veio golpista adormecido". Segundo ela, a partir da década de 1960, o "impeachment sistematicamente se tornou instrumento contra presidentes eleitos".

A petista ressaltou ainda que, desde a redemocratização do país, não houve um presidente que não tenha sido alvo de um pedido de afastamento no Congresso Nacional. Segundo ela, "infelizmente" o ex-presidente Fernando Collor sofreu impeachment em 1992.
O partido da presidente, o PT, defendeu quando estava na oposição ao governo federal tanto a saída de Fernando Collor como a de Fernando Henrique Cardoso, em 1999.
A petista disse ainda que é vítima de um processo de impeachment baseado em uma "flagrante injustiça" e em uma "fraude jurídica e política".

A petista disse ainda que, no processo de impeachment, tem sido vítima também de preconceito por ser mulher. Para ela, o tratamento dado ao presidente neste momento seria diferente se fosse do sexo masculino."Há misturado nisso tudo um grau de grande preconceito contra a mulher. Há atitudes comigo que não seriam feitas com um presidente homem", disse.


A presidente também criticou discurso feito pelo deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que dedicou seu voto favorável ao impeachment ao coronel Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-CODI em São Paulo. Segundo ela, a homenagem é "lamentável" e "terrível" e demonstra que a discussão sobre o impeachment deu abertura no país à "intolerância" e ao "ódio".

Ela ainda voltou a dizer que gestões anteriores também cometeram as chamadas "pedalas fiscais" e que, caso o processo seja válido contra ela, deverá também ser aplicado a outros governos da federação que também praticaram manobras contáveis. "É por isso que se diz que se valer o meu processo do impeachment, não sobra nenhum governo do passado com as mesmas características que o meu, assim como muitos outros da federação nacional", disse. Ela disse ainda que não pesa contra ela nenhuma denúncia de corrupção.

mockup