Sem travas na língua e sem medir palavras, o pecuarista Manoel Campinha Garcia Cid, 59 anos, é um homem público que desperta a atenção tanto do governo do Estado, quanto da oposição. Há um ano e dois meses ele comanda a presidência do Banestado, tempo suficiente para gerar várias polêmicas pela verborragia liberta de autocensura. Brigou com os deputados estaduais, começando por uma queda-de-braço com o presidente da Assembléia Legislativa, Aníbal Khury, quando disse a eles que deveriam honrar a cadeira onde sentam e pagar as contas que deviam ao banco. Venceu a batalha política, quando Khury pediu seu afastamento do banco. Outra briga - mais ‘‘ideológica’’ - foi travada com a ex-superintendente do Incra no Paraná Maria de Oliveira, em que ele a acusou de integrar o Movimento Sem Terra.
Hoje, Neco Garcia jura não saber o que o mantém na presidência de
um banco prestes a ser privatizado. Ao mesmo tempo que afasta os políticos do banco ao discordar de empréstimos fora da regra técnica, Neco se curva a pequenos pedidos, como o de uma menina de 14 anos que enviou a ele uma carta pedindo emprego para ajudar a mãe. Contratou a garota para ser office-girl.
Neco acredita que mesmo à sua maneira conquistou a confiança do governador Jaime Lerner e, apesar de se sentir desconfortável por estar ‘‘confinado’’ dentro de um escritório, não pretende abrir mão do desafio.
Londrinense de carteirinha, ele mantém a ‘‘paixão pelo campo’’ e, como presidente por muitos anos da Sociedade Rural do Paraná, reduto de setores refratários à reforma agrária, hoje ele se diz a favor da distribuição de terra, mas contra os métodos do MST. Na quinta-feira, ele recebeu a Folha para a seguinte entrevista:


‘‘Estamos sendo vítimas da globalização’’
Neco Garcia diz que se considera homem do campo, e que se mantém na presidência do Banestado para contribuir
Carmem Murara
Mauro FrassonEstiloNeco: ‘‘Não sou de esconder nada e ajo sempre com transparência’’Folha - O senhor é fazendeiro, foi presidente da Sociedade Rural do Paraná por vários anos e hoje administra o Banestado. O senhor já se acostumou com esta situação?
Manoel Garcia Cid - Eu sou muito mais um homem do campo. Me considero jacu mesmo, porque gosto da agricultura e mais ainda da pecuária. Gosto de trabalhar com gado. Eu sempre tive mais gosto de trabalhar nesta área do que dentro de um escritório. Não vejo com muito agrado o meu confinamento.
Folha - E como o senhor se sente tendo que administrar e controlar, de dentro de um escritório, todo o Banestado?
Garcia - Eu entendo como uma missão. Estou contribuindo para levar o banco a uma situação mais agradável no cenário nacional e isto é gratificante. Não sou banqueiro, não sou bancário. Nunca tive contato do lado de dentro do balcão de um banco. Mas o governador Jaime Lerner disse que precisava de alguém com meu perfil. Talvez meu perfil seja este: meio sangue quente, meio sangue espanhol. Sou persistente e gosto de trabalhar.
Folha - Em um ano como presidente do Banestado, o senhor mexeu com setores considerados intocáveis pelas antigas diretorias. Um dos casos foi quando o senhor enfrentou os deputados estaduais e disse a eles que deveriam se preocupar mais em pagar os empréstimos do que em interferir no banco. Quais as consequências deste episódio?
Garcia - Temos que deixar muito claras as posições. Fui convidado para ser presidente do Banestado. Houve um mal-entendido que temos de esclarecer. No dia da minha posse recebi dois ou três documentos da Assembléia Legislativa, indicando nomes para serem diretores do Banestado. Eu respondi a carta dizendo que os deputados mandam e continuarão mandando na Assembléia. E eu, como presidente do banco, mando no Banestado. A indicação de diretores cabe a mim e ao meu superior que é o secretário da Fazenda, Giovani Gionédis. E ele leva os nomes ao governador.
Folha - Mas o senhor conseguiu fazer com que a parte política não interferisse no banco?
Garcia - Sem dúvida. Tanto é verdade que reformulamos várias diretorias. E hoje, tenho a impressão, que não há mais a ingerência de pessoas que não têm conhecimento do que é administração de um banco. Aceitamos as sugestões, mas não nos sujeitamos a elas.
Folha - O senhor se sente vitorioso nesta queda-de-braço com os deputados?
Garcia - Não digo que sou vitorioso. Mas eu sei que toda a responsabilidade e atos do banco vão recair sobre o meu patrimônio.
Folha - Muitas declarações que o senhor fez e faz com relação ao Banestado colocam o governo numa saia justa. Em algumas vezes o senhor chegou a ser advertido pelo governo, mesmo assim continua fazendo as declarações polêmicas. Por quê?
Garcia - O governador foi me buscar na minha casa para ser presidente do Banestado. Naquela época, eu era presidente da Sociedade Rural do Paraná e este é meu perfil. Só que eu não tinha sido preparado para a melhor maneira de me conduzir em várias situações. Mas este é meu caráter e meu perfil. Não sou de esconder nada e nem preciso esconder nada. Quando vim para cá, propus uma gestão unida. Quem não estiver satisfeito está liberado. Minha gestão é aberta, clara, e vai ser assim. Muitas informações, que eram tidas como sigilosas, eu não via razão para serem sigilosas. Não vejo razão de se fugir à verdade e levar informações que não condizem com a verdade.
Folha - A meta do senhor é agir com transparência?
Garcia - Se a pessoa que está administrando o cargo não tem credibilidade e confiabilidade, não há razão para assumir esta responsabilidade.

‘‘O governo também foi uma vítima’’
Folha - Mas esta postura de abertura desagradou até o governo do Estado em algumas situações. O que mantém o senhor no cargo?
Garcia - Acredito que é por esta abertura. Temos uma administração séria, apesar de, lamentavelmente, neste governo terem ocorrido situações muito desagradáveis e indefensáveis, praticadas neste banco e coligadas. Atos em que foi vitimado o próprio governo do Estado, onde faltou a confiança depositada aos que deveriam estar honrando o banco.
Folha - Muita gente se aproveitou do banco pelo fato de ele ser estatal?
Garcia - Lamentavelmente, é uma verdade em que temos que acreditar.
Folha - Quais casos?
Garcia - Eu não gostaria de nominá-los, mas isto já é público e notório. O caso está sendo investigado na Justiça Federal. As pessoas haverão de sofrer as penalidades. A Polícia Federal está investigando os que foram demitidos e os que ainda estão na atividade, porque eles fizeram administração temerária e usaram o dinheiro público, que pertence ao povo.
Folha - O senhor se refere ao caso da Leasing, onde esteve envolvido o atual secretário de Esportes, Osvaldo Magalhães dos Santos?
Garcia - Também ao caso da Leasing.
Folha - Este foi o maior escândalo encontrado dentro do banco?
Garcia - Eu não posso dizer que é o maior escândalo, mas é o volume que deu maior prejuízo ao Banco do Estado. O volume de dívida que a empresa Banestado Leasing tinha para com o Banestado era de R$ 423 milhões. A operação de Leasing é feita com 24 ou 36 meses e é lógico que se há uma operação para vencer, ela aparece como ‘‘contas a receber’’, só que muitas delas foram feitas sem garantias e não se está recebendo. O que está aparecendo como ‘‘contas a receber’’, o governo está tendo que tirar dinheiro de seu capital para provisionar.
Folha - Quando este caso veio à tona, o senhor afirmou que haveria punição aos responsáveis. A influência política impediu que isso ocorresse?
Garcia - Se você fala da Leasing isso não é verdadeiro. Havia uma auditoria interna na Leasing que resultou em notícia crime. Transmiti aos meus superiores os resultados e aguardei uma solução. Eu me senti na obrigação de encaminhar a notícia-crime contra os administradores que trouxeram prejuízo à empresa. Eu fiz minha parte. Jamais fugiria ao meu caráter. Eles estão sendo investigados.
Folha - O que mudou no banco com sua administração?
Garcia - Quando entrei aqui, os diretores contavam que o banco era administrado por três segmentos e as decisões não cabiam à maioria. Eu não entendia o porquê, pois era um feudalismo dos diretores. Centralizamos as decisões da diretoria para um colegiado. E hoje, a equipe está unida.
Folha - Por que o Banestado precisa hoje de R$ 4,1 bilhões do Banco Central. O que levou o banco a esta situação?
Garcia - O banco passou por uma série de dificuldades e precisou de aporte de capitais. A Leasing é um dos exemplos, pois estava devendo ao Banestado R$ 423 milhões. Saiu dinheiro do caixa do banco para colocar na Leasing e isso está faltando, pois a Leasing não retornou o dinheiro. Muitos não honraram os compromissos, tanto empresários quanto clientes. Hoje, a carteira de cobrança é de R$ 800 milhões, isto é, a inadimplência agravou-se com a dificuldade de outubro do ano passado. A moeda é muito cara. Não tendo dinheiro no caixa para o banco reemprestar, ele é obrigado a recorrer ao interbancário e Banco Central, onde se paga taxa bem elevada.
Folha - A oposição, em especial o senador Roberto Requião, tem dito que o atual governo quebrou o Banestado.
Garcia - Isso não é verdadeiro. Temos documentos e levantamentos que comprovam que nas gestões anteriores houve operações mal-feitas. Na gestão do senador Roberto Requião é onde se acumulam os maiores problemas do Banestado. Os governos Requião e Mário Pereira deixaram um prejuízo de R$ 20 milhões no Banco del Paraná (Paraguai). O Requião é professor de sua verborréia maledicente para tentar levar a situações enganosas.
Folha - Teria sido melhor privatizar o Banestado no início do atual governo?
Garcia - Quando o governador Jaime Lerner assumiu ele deveria ter privatizado o Banestado.
Folha - Qual o futuro para o Banestado a curto prazo?
Garcia - Estamos recebendo orientações do Banco Central para que, no acordo entre governo do Estado e governo federal, não haja uma interferência ou uma... vamos assim dizer... uma privatização branca, onde o Banco Central venha administrar o Banestado. Esta diretoria iria coordenar a privatização. A empresa Ernest & Young, junto com o Banco Central está buscando os números e valores do Banestado. Vamos passar por período de enxugamento de diretorias. A data de 30 de junho de 1999 é o prazo fatal para que governo do Estado, sócio majoritário com 47% do patrimônio do banco, faça a privatização.
Folha - Já há possíveis compradores?
Garcia - Não posso dizer que há compradores. O melhor mercado financeiro do Brasil está em São Paulo. Bradesco ou Itaú devem comprar o Banespa. Quem não comprar o Banespa deverá disputar a compra e aquisição do Banestado.
Folha - E quanto aos bancos estrangeiros. Eles têm demonstrado interesse no Banestado?
Garcia - Nós estamos sendo vítimas do mercado globalizado. É importante preservarmos nossa economia para que ela não seja administrada pelos estrangeiros. Eu sou consultado por representantes de bancos, que mostram interesse no Banestado. Há um grupo italiano da Emília Romagna e do outro do Deutsche Bank que nos procuraram.
Folha - Como é o relacionamento do senhor com o governador Jaime Lerner, que foi quem o indicou para o cargo?
Garcia - Tenho total apoio e solidariedade do governador, até mesmo nos momentos mais críticos. Sinto-me como um empresário e administrador que fez pouco, mas o pouco foi reconhecido.
Folha - O senhor foi presidente por muitos anos da Sociedade Rural. Ainda hoje, o senhor concorda com a linha adotada por eles?
Garcia - Não há dúvida. Não só defendo os ruralistas como defendo a Constituição do Brasil, que diz que todos temos direito de liberdade, expressão e ir e vir. No caso das invasões de terras, muitas vezes eles (fazendeiros) são confinados e humilhados. Isso é ilegal. Atos de invasão são ilegais e cabe ao governo manter a propriedade.

‘‘Sou favorável à
reforma agrária,
mas sem violência’’
Folha - Qual avaliação que o senhor faz sobre a política do governo do Estado para os sem-terra e ruralistas?
Garcia - O governo do Estado tem tido uma conduta de equilíbrio, talvez pela personalidade do governador Jaime Lerner. Ele é da raça polonesa e judaica, que sofreu muito no passado. Talvez isso o faz dar atenção aos menos favorecidos.
Folha - Os ruralistas estão revoltados com o governador. Eles não concordam com a política do governo, que não faz a desocupação de fazendas invadidas.
Garcia - Eu também não concordo com algumas situações, mas temos que analisar todo o contexto de uma invasão. Nós temos um problema seriíssimo quanto à reforma agrária que é um partido político, o PT. Ele é voltado para as cores do comunismo. No Paraná, temos 455 mil propriedades agrícolas. Destas 81% são menores do que 20 hectares. Nós já temos uma reforma agrária implantada.
Folha - O senhor é contra ou a favor da reforma agrária?
Garcia - Sou favorável à reforma agrária, mas sou contra as ocupações violentas. As últimas invasões de terra no Paraná quebraram o acordo com o Incra.
Folha - Como o senhor avalia o Movimento Sem Terra?
Garcia - Eu conheço alguns trabalhos do Incra, muitos assentamentos são elogiáveis como em Cantagalo e em Querência do Norte. Tenho fazenda perto e sei que os assentamentos vão muito bem. Só tenho elogios. É o caminho, desde que o governo federal contribua com financiamentos baratos para eles. Não vale nada ter vontade e não liberar o recurso. O caminho da reforma agrária é este.
Folha - O senhor teme ter alguma fazenda sua invadida?
Garcia - Medo não, porque sou responsável pela administração da minha fazenda e faço com que ela seja produtiva. A minha atividade é a pecuária. Já sou vizinho de duas áreas que foram desapropriadas, que é a Fazenda Porangava, em Querência do Norte. O caminho da reforma agrária está correto, só que o Movimento Sem Terra não tem tido paciência. Tudo é em função do tempo. E isso tem provocado a desconfiança, a falta de segurança e o perigo das invasões.
Folha - O senhor chegou a se interessar pela política e foi candidato a prefeito de Londrina contra o atual prefeito Antonio Belinati.
Garcia - Não existe no Paraná político mais inteligente e mais vivo do que o Belinati. Uma vez ele estava no palanque eleitoral, quando passou um avião e ele disse aos eleitores: ‘‘Vocês estão aqui, de papo para o ar, vendo eu falar e lá em cima, naquele avião, estão indo as vacas e bois do Neco Garcia’’. Tenho muito apreço por ele.
Folha - O senhor não quer mais saber de política?
Garcia - Não, eu não sou político. Naquela época, o governador Jayme Canet me convidou porque tivemos uma bela gestão na Sociedade Rural Brasileira. Mas não entendo de política, não sei mexer com ela e não tenho o perfil de político. Às vezes, os políticos não podem falar o que pensam, né? Eu tenho o meu caráter. Minha vida eu a conduzo com liberdade de expressão e de respeito a todos, mas gosto de ser respeitado.

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