Estado é laico, mas igrejas ainda fazem política
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de outubro de 2009
Rosiane Correia de Freitas<br>Equipe da Folha 
Curitiba - No próximo dia 15 de novembro o Brasil completa 120 anos da Proclamação da República e da separação entre Estado e Igreja. Em todo esse tempo as igrejas cristãs aprenderam a participar do jogo republicano influenciando eleições e decisões legislativas. Com um público de 157 milhões de pessoas, 60% das quais contribuem com suas igrejas mensalmente com um total de R$ 1,7 bilhão, entidades das mais diferentes denominações religiosas têm garantido seu espaço na política brasileira. Os dados são de uma pesquisa realizada em agosto pelo Instituto Análise.
O trabalho das igrejas na política vai dos bastidores, na conversa com líderes do Executivo e do Legislativo para defender temas de interesse dos cristãos, à eleição de representantes. Entre as diferentes igrejas cristãs, a forma de atuação varia, mas há pontos de convergência em casos como o trabalho pela não aprovação no Congresso Nacional da lei que criminaliza a homofobia e o lobby contra a legalização do aborto.
Segundo o cientista político Ricardo de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), os religiosos são mais um entre diversos segmentos de interesse que atuam na política nacional. ''É mais um grupo de pressão que acaba influenciando os votos dos parlamentares'', destaca.
Oliveira, no entanto, minimiza o peso da fé na elaboração e aprovação de leis. ''A bancada das religiões nos legislativos é um fenômeno que surgiu, teve seu crescimento, mas que está estabilizado'', diz. O que limita uma maior participação das igrejas na política, defende, é a própria dinâmica das religiões. ''Se a igreja elege um pastor, ele atrai atenção e acabam surgindo outras pessoas que se candidatam e que acabam disputando os votos dos fiéis. E muitas vezes o político não consegue se sustentar só com os votos da igreja'', explica.
O lobby cristão tem a seu favor uma grande capacidade de organização, aponta o cientista político. A proposta de lei de iniciativa popular que veda a participação dos chamados ''Ficha Suja'' - pessoas com condenações judiciais - nas eleições brasileiras foi viabilizada pela mobilização promovida pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e por outras entidades religiosas. O texto recebeu a assinatura de 1,3 milhão de brasileiros.
Esta não é a única iniciativa do gênero. Dez anos antes, em 1999, as mesmas entidades já haviam apresentado ao Congresso a Lei da Compra de Votos (Lei 9.840/99), primeira iniciativa popular a tramitar no legislativo federal. ''A Igreja Católica tem a capacidade de mobilizar as comunidades. Nossa ação política é educativa'', explica o secretário executivo da CNBB no Paraná, padre Carlos Alberto Chiquim. Segundo o religioso, a Igreja não assume candidatos nem orienta padres a exercerem cargos políticos. ''Nós respeitamos a orientação do eleitor'', diz.


