Estado convive com desigualdades absurdas
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sábado, 26 de julho de 1997
Agência Estado Maceió 
No dia 25 de maio deste ano, a sorte voltou a sorrir para o funcionário público Luiz Gonzaga Mendes de Barros. Além do polpudo salário mensal de R$ 37 mil, ele recebeu R$ 181 mil de gatilhos salariais atrasados e foi comemorar com a família em Paris. No mesmo dia em que Mendes recebeu a bolada, Fernando Batista de Oliveira recebeu seu contracheque de R$ 112,00, e foi para casa na periferia de Maceió com intenção de dar fim a sua vida e à da família. A história não teve um fim trágico para Oliveira, graças à interferência dos colegas de trabalho. Entretanto, mostrou que a desigualdade e a injustiça imperam no funcionalismo de Alagoas.
O pagamento dos servidores está atrasado há nove meses - o Estado começou a pagar parcelas dos salários na sexta-feira - porque, entre outros problemas administrativos e financeiros, o governo de Alagoas deixou de arrecadar cerca de R$ 600 milhões de ICMS desde 1988 para beneficiar 29 usineiros, graças a um acordo feito pelo então governador Fernando Collor de Mello. Sem arrecadação e com uma economia instável, o Estado é o segundo mais pobre do País, segundo um estudo feito pelo professor Fernando José de Lira, da Universidade de Alagoas. Só comparável com os países mais miseráveis da África, diz o estudo.
A cena vista todo final de mês na pequena agência dos Correios em Olho DÁgua do Casado, a 260 quilômetros de Maceió, mostra a dimensão da crise por que passa Alagoas. Dezenas de pessoas se aglomeram diante da agência à espera do pagamento dos 500 aposentados. O salário minimo recebido pelos inativos, pago pelo governo federal, é único dinheiro que circula na região, onde vivem pouco mais de três mil habitantes. Hoje, na zona rural de Alagoas, 79,5% trabalhadores são temporários e sem carteira assinada. Na entressafra da cana, um dos pilares da economia do Estado, a maioria fica sem emprego, como José dos Santos Filho, de 50 anos, que é obrigado a pedir esmola em frente ao Palácio dos Martírios.
Em Maceió, o contraste entre a riqueza e a pobreza é mais do que visível. As cenas de crianças circulando por entre turistas e carros pedindo esmola ou limpando pára-brisas são como as vistas nas demais capitais do País, mas a diferença é que são muitos os menores na rua. Eles fazem parte de um exército de 405 mil crianças consideradas indigentes, segundo estimativas oficiais.
Os dados de mortalidade infantil em alguns municípios alagoanos continuam estarrecedores: três crianças morrem de diarréia a cada semana na cidade de Branquinha, a 60 quilômetros de Maceió. O município não tem sistema de saneamento básico e, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), é o maior índice de mortalidade e analfabetismo do País. A cada mil crianças que nascem em Branquinha, 125 morrem antes do primeiro ano de vida.


