Imagem ilustrativa da imagem ‘Essa luta não é só por democracia; é por outra civilização’
| Foto: Annelize Tozetto/Revista Vírus
"Os políticos deveriam viver como o povo vive, e não como a minoria aristocrática", discursou José "Pepe" Mujica a uma plateia de quase 3,5 mil pessoas, a maioria universitários



Curitiba – Construir uma sociedade mais justa, igualitária e fraterna, mas tendo como base também a garantia do direito à felicidade. Esse foi o recado que o senador e ex-presidente do Uruguai José "Pepe" Mujica deixou ontem para as quase 3,5 mil pessoas, a maioria universitários, que lotaram o ginásio do Círculo Militar, em Curitiba. Ovacionado desde a chegada, às 10h30, até sair do palco, perto de 12h30, Mujica foi a atração principal do debate "Democracia na América Latina", promovido pelo Laboratório de Cultura Digital da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Já no período da tarde, ele conversou com jornalistas sobre temas como o processo de impeachment de Dilma Rousseff (PT), o futuro da esquerda no continente e o desgaste da imagem dos políticos tradicionais.
"A minha geração pensava que socializar os meios de produção, melhorando a distribuição, seria suficiente. Grave erro. Se você não muda a cultura, não muda nada", afirmou. "A diferença é que vocês (jovens) podem dar rumo na sua existência (...) Essa luta não é só por democracia; é por outra civilização. Não é a luta por ódio, por vingança ou por exploração. É a luta por liberdade aos oprimidos, por uma humanidade melhor", prosseguiu. A plateia, que na entrada do local emitiu gritos contra o governo interino, de Michel Temer (PMDB-SP), e a gestão do governador Beto Richa (PSDB), ouvia a tudo atentamente, reagindo apenas com aplausos.
O senador garantiu não fazer apologia à pobreza; defendeu, inclusive, que as novas gerações trabalhem de modo a satisfazer suas necessidades materiais. Por outro lado, frisou a necessidade de se cultivar um tempo para ser livre. "Você não pode ir a um supermercado e comprar cinco anos de vida. Mas seu tempo, gasto atrás da ilusão de querer comprar, que objetivo tem? Que tempo teve para amar? Que tempo teve para seus amigos, para seus filhos, para as coisas eternas que te fazem feliz?", perguntou. Ex-combatente da ditadura civil-militar uruguaia, ele esteve no poder entre 2010 e 2015.
O evento aconteceria na sede da APP-Sindicato, cujo auditório comporta um público de 500 pessoas. Como em 48 horas mais de sete mil interessados se cadastraram para participar, porém, os organizadores acabaram negociando um espaço maior. Ainda assim, só a metade conseguiu a credencial. A fila no início da manhã chegou a ocupar cinco quadras. Também participaram da mesa de debates o professor de relações internacionais Gilberto Maringoni, da Universidade Federal do ABC, a militante da Rede de Mulheres Negras Heliana Hemetério dos Santos e a professora da Universidade Federal da Integração Latino Americana (Unila) Lívia Morales.

IMPEACHMENT
De acordo com Mujica, o afastamento de Dilma prejudicou a imagem do Brasil no cenário internacional. "A repercussão da discussão no Parlamento, no momento da votação (na Câmara), fez mal ao País. O Brasil é um país formidável; não merecia isso", avaliou. Segundo ele, que é próximo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a impressão que se dá é de que o processo foi estritamente político. O senador destacou ainda o fato de mais de 40 milhões de pessoas terem saído da condição de extrema pobreza nos últimos anos. "Foi um passo gigante. E é comum que as conquistas sociais sejam lentas."
Questionado sobre a imagem que fica dos representantes eleitos pelo povo, uma vez que em outubro acontecem pleitos municipais, Mujica disse que o dinheiro colocou a política em descrédito. "Num mundo de mercadorias, tudo vira um negócio. A política vira um caminho para se chegar à riqueza. E a política é outra coisa. É a carreira da honra e da dignidade (...) Os políticos deveriam viver como o povo vive, e não como a minoria aristocrática" (...) "É mentira que todo mundo tem um preço. Muita gente não tem. São esses que precisamos eleger", aconselhou.

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