Esquema teria ramificação mineira e suprapartidária
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sábado, 23 de julho de 2005
Sérgio Gobetti<br> Agência Estado 
Brasília - Os dados já reunidos pela CPI dos Correios mostram que a rede de irrigação de milhões de reais montada pelo empresário Marcos Valério apresenta uma ramificação mineira e suprapartidária, além do esquema especial montado com o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares para beneficiar alguns fiéis escudeiros e aliados do governo Lula. Dos R$ 26 milhões sacados em dinheiro vivo das contas da DNA e da SMPB no Banco Rural, pelo menos R$ 1,8 milhão foram parar na campanha de diversos candidatos mineiros às eleições municipais em 2004.
As identidades das pessoas que sacaram o dinheiro indicam que as agências do publicitário em Minas financiaram direta ou indiretamente campanhas de três candidatos a prefeito de Belo Horizonte: Fernando Pimentel (PT), Roberto Brandt (PFL) e João Leite (sem partido, mas apoiado pelo PSDB). Até mesmo as datas dos saques são muito próximas: entre 27 de agosto e 2 de setembro de 2004.
Em outras cidades mineiras, o dinheiro de Valério também chegou às mãos de diversos assessores ou candidatos do PSDB, PFL, PMDB e PDT. ''Esse dinheiro é maldito. Quem pega ele, ou perde a eleição ou corre o sério risco de perder o mandato'', brinca o deputado Onyx Lorenzoni, referindo-se ao fato de que apenas um dos candidatos mineiros, o petista Pimentel, foi eleito.
O destino de parte do dinheiro sacado em Minas ainda é um mistério, pois o publicitário usou donos de factoring, empresários e até policiais civis para levar o dinheiro não se sabe onde. Apenas o trio de policiais civis e informantes já detectados pela CPI sacou, em dinheiro, R$ 6,75 milhões em Belo Horizonte entre 21 de fevereiro e 23 de maio de 2003.
É bem possível que essas ''mulas mineiras'', como já foram apelidados na CPI, tenham sido recrutadas por Valério e Delúbio para repassar o dinheiro à cúpula do PT sem deixar pistas. Em São Paulo, o esquema armado pelo tesoureiro do PT fez uso de uma corretora de valores, a Bônus-Banval. Um auxiliar administrativo da corretora recolheu R$ 255 mil em setembro de 2004, a pedido da diretoria, que ainda não sabe informar se o dinheiro foi ou não aplicado na carteira de investimentos de algum cliente.
O mais estranho é que, além do auxiliar Benoni Nascimento de Moura, o Banco Rural também tenha entregue em junho de 2004 R$ 50 mil a uma pessoa identificada como Luiz Carlos Mazano, contador da Banval, sem exigir dele cópia de sua carteira de identidade. Pelos dados da CPI, a mesma pessoa teria sacado em nome de Roberto Marques, apontado por alguns parlamentares como um dos assessores do ex-ministro José Dirceu.
Os dados da CPI mostram ainda que os sócios ou funcionários da SMPB e DNA sacaram na boca do caixa R$ 9,5 milhões, mas não se sabe quanto desse valor foi parar nas mãos de Delúbio. Os mesmos relatórios indicam, entretanto, que o dinheiro sacado diretamente por petistas (R$ 1,22 milhão) não foi distribuído para os diretórios regionais do partido que mais necessitavam de recursos, como alegado por Delúbio.
Os repasses foram feitos estritamente para integrantes de confiança do grupo majoritário do PT do qual Delúbio faz parte, como a assessora do deputado Paulo Rocha (PA), o deputado Josias Gomes (BA) e a mulher do deputado João Paulo Cunha (SP).


