Esquema pode ter beneficiado empresa
Lúcio Horta
De Londrina
Uma empresa supostamente ligada ao deputado federal José Janene, presidente do diretório estadual do PPB, pode ter sido beneficiada pelo suposto esquema de corrupção envolvendo a Companhia Municipal de Urbanização (Comurb), de Londrina. A Mercoluz Construções Elétricas Ltda., é apontada como vencedora de oito licitações na companhia entre o final de 98 e o primeiro semestre deste ano, todas na modalidade carta-convite. Para isso, teria recebido R$ 625,3 mil. Os contratos estão entre os investigados pelo Ministério Público.
A Mercoluz está instalada num imóvel na Rua Fernando de Noronha, 488, área central de Londrina. O prédio foi registrado, em maio de 98, no nome de Stael Fernanda Rodrigues Lima, mulher de Janene, e Danielle Kemmer Janene, filha. O próprio deputado, segundo uma certidão do cartório do 1º Ofício, tem direito ao usufruto do imóvel.
No mesmo endereço funcionava a empresa Eletrojan, também de instalação elétrica e que pertenceu ao deputado. Os sócios-proprietários da empresa, Antonio Alcântara Filho e o engenheiro elétrico Luiz Yutaka Fukushigue, foram funcionários de Janene na Eletrojan durante vários anos. Também no local onde hoje é comum encontrar veículo de campanha de Janene não há inscrição indicativa da localização da sede da Mercoluz.
O primeiro contrato realizado pela Mercoluz com a Comurb, dentre os investigados pelo MP, foi assinado em 4 de novembro de 1998, para implantação da decoração de Natal da cidade. O pedido previa serviços de engenharia elétrica para execução de serviços e iluminação em 400 árvores e 800 postes. Para o trabalho, a Mercoluz teria recebido de R$ 148,2 mil e, posteriormente, mais R$ 36,9 mil, por causa de um termo aditivo, totalizando R$ 185,1 mil.
Além da Mercoluz, que venceu a concorrência, foram convidadas para participar da licitação as empresas Energibrás e Visatec, esta última de Faiçal Jananni, irmão do deputado federal. Analisando a documentação do Ministério Público, chama a atenção o depoimento da arquiteta Kátia Moura Leite, que teria realizado sem licitação o projeto de decoração. A arquiteta disse que fez o serviço depois de procurar, entre o final de setembro e o começo de outubro, o médico Valdimir Belinati, irmão do prefeito de Londrina, Antonio Belinati (PFL).
No encontro com Valdimir realizado na sede da Sercomtel, onde ainda hoje Valdimir é diretor administrativo a arquiteta teria apresentado desenhos com propostas da decoração nataliana. Uma semana depois, segundo disse a arquiteta ao MP, uma secretária de Valdimir ligou informando que a Mercoluz seria a responsável pela implantação do projeto. A escolha oficial da empresa, no entanto, decidida pela comissão de licitação da Comurb, só foi feita no dia 26 de outubro, após a arquiteta ter sido avisada sobre o nome da vencedora. Kátia Leite informou ainda que encaminhou os seus projetos para a Mercoluz e ganhou, pelos serviços, R$ 2,6 mil, pagos diretamente pela Comurb.
Uma rápida análise na documentação apreendida pelo Ministério Público sugere outras irregularidades. Quem assinava os projetos básicos da prefeitura, por exemplo, necessários para abrir o processo de licitação, é o próprio Luiz Yutaka Fukushigue, sócio-gerente da Mercoluz. A exigência dos projetos básicos consta do artigo 7º da lei 8666/93 (das licitações). Havia o timbre da prefeitura nesses projetos assinados pelo engenheiro.
Além da decoração natalina, outros sete serviços teriam sido realizados pela Mercoluz na Comurb. Nos dias 3 e 4 de fevereiro, por exemplo, a empresa recebeu R$ 149.020,00 e R$ 95 mil, respectivamente, para mais dois trabalhos. O primeiro feito também a partir de licitação na modalidade carta-convite foi para adequação da iluminação do Bosque (carta número 018/99); o segundo para a instalação de um transformador de 150 KVA no pátio do depósito de materiais da gerência de trânsito (carta 019/99). Apesar de terem sido pagos, os serviços não foram totalmente realizados (ler nesta página).
Em alguns casos também acontecia de o projeto ser encaminhado pela Mercoluz à Copel, pedindo autorização para execução de serviços de iluminação pública, antes mesmo de a licitação ser realizada. É o caso da carta número 044/99, de 31 de março de 99, para uma obra de iluminação na rotatória da Rua Jacob Bartolomeu Minatti e Avenida 10 de Dezembro. Neste caso, o pedido encaminhado pela empresa à Copel data de 16 de março.
Em vários processos apreendidos pelo MP, ainda é possível verificar a falta de documentos, como a carta número 039/99, também pedindo serviços de iluminação para o Bosque. Existe apenas a solicitação de serviços onde consta o nome da Mercoluz e da Visatec como convidadas com a assinatura do ex-secretário de Governo, Wilson Mandelli, autorizando a abertura da licitação. Não há ata da comissão de licitação, contrato ou mesmo o empenho para o pagamento do serviço.
O Ministério Público pediu ao Instituto de Criminalística perícias para saber se os trabalhos foram realmente realizados. O promotor Bruno Galatti, da Promotoria de Defesa do Patrimônio Público, aguarda o resultado da perícia para dar sequência às investigações. Ele não quis comentar, no entanto, as investigações do MP envolvendo a Mercoluz.A Mercoluz teria ligações com o deputado José Janene e é apontada como vencedora de oito licitações, no valor de R$ 625 mil
Josoé de CarvalhoRELAÇÕESCaminhão de campanha do deputado Janene em frente à Mercoluz, na Rua Fernando de Noronha, em Londrina





